Você me envergonha

Sabe, pai,
A vida nem sempre é justa com todo mundo. Na maioria das vezes, quase ninguém tem a sorte que você teve, por assim dizer. Eu juro que entendo, não deve ser fácil descobrir que seus pais não são seus pais e que a vida até então pareceu uma mentira. Mas já são mais de 40 anos que descobriu. São 40 anos que você começou a beber para esquecer disto. Eu vivo me perguntando o porque disso tudo. Porque para algumas pessoas a vida realmente não é justa. Mas, infelizmente, a gente não escolhe. Eu também não te escolhi como pai e talvez jamais escolheria alguém como você para ser meu herói. Desde aquele dia que foi embora e voltou, você nunca mais me olhou nos olhos. Eu nunca entendi ao certo porque comigo. Eu te amava tanto, pai. Quando lembro da minha infância, só consigo pensar nos seus discos do Van Halen, nas suas camisetas de banda, seus clipes de madrugada e seu all star preto. E, é claro, dos seus olhos verdes. Como você era bonito, pai. Como eu amava você. Eu tentei tanto fazer você perceber isso, mas eu acho que eu nunca fui a pessoa que você realmente queria ter como filha. Eu gostei das suas bandas, eu torci pelo seu time e acompanhei cada jogo, eu amo fórmula 1 por sua causa, eu sou viciada em clipes porque você também gosta, eu sou insuportável de manhã porque você também é... até o mesmo dedo torto nós temos. Eu puxei tanto de você, pai. Depois de tudo o que já fiz por você, depois de tanta coisa que já superei para te dar um fim mais digno, como você tem coragem de dizer que tem vergonha de mim? Justo de mim, pai? Eu sou tão decente. Tenho um milhão de defeitos, mas sempre tentei ser uma pessoa boa. Alguém que desse orgulho para a família e para mim mesma. Corri atrás de tanta coisa. Perdi muito também, pai. Me casei com um cara praticamente igual a você. Eu era tão humilhada e machucada, igual você faz com a minha mãe, mesmo não tendo mais uma relação de marido e mulher. E até quando eu estava no pior dos meus dias, com todos me xingando, você ficou do lado deles. Eu ainda era a errada. Por que pai? Por que eu sou uma vergonha? Por que? Eu fico me perguntando porque você vive dizendo que começou a beber por causa de mim. O que eu fiz de errado? Por que eu tenho que carregar essa culpa que não é minha? Eu juro que tento te entender. Eu juro que quando eu te vejo internado, fora de si, meu mundo simplesmente desaba. Igual agora. O que faz não é certo, pai. Mas eu sempre tentei te entender. Até quando você me fazia passar cada mico na frente dos meus amigos. Ou quando você aparecia pelado na sala de casa e eu morrendo de vergonha. Ou quando você xingava a minha mãe na frente dos outros. Ou quando eu te encontrava caído no meio da rua. Poxa vida, pai. Por que tem que ser assim? Por que você não pode continuar sendo o cara que deitava comigo na cama e brincava de barbie, de jogos de tabuleiro ou de perguntas e respostas? Eu não queria muito, sabe. Eu só queria você com a mente sã. Você nos almoços de família. Você sóbrio nos meus aniversários. Era só você, pai. Não precisava me dar nada. Era só existir ali, em sua própria pele e sem o veneno da raça. Eu juro que entendo, que você  começou a beber para esquecer dos seus problemas. Mas e a nossa família? Por que destruí-la? Por que eu sou a culpada? Cade aquela cara que falava pra todo mundo "Essa é meu docinho, minha filha"? O que foi que mudou tanto?

Eu queria poder dizer que vou sentir a sua falta. Mas você já me fez tanta falta que aprendi a lidar com isso. Eu aprendi a lidar com o vazio do seu coração. Com o vazio dos seus olhos verdes. Eu aprendi que eu não posso te salvar, pai. Eu tentei, juro que tentei. Mas eu não posso salvar alguém que não quer ser salvo. Eu me preparo todos os dias para a sua partida. Sei que será em breve. Eu só espero, do fundo da minha alma, que você reconheça que o tempo todo eu estava aqui pra você. E que, mesmo você dizendo que eu te envergonho, meu amor sempre foi teu.

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