Fade into you



A vida é uma coisa meio maluca, às vezes. Aqui de cima do Décimo Sétimo andar eu olho para o nosso antigo apartamento. As janelas estão todas fechadas. Eu percorro com os olhos o caminho que a gente fazia ao voltar para casa, quando me buscava no trabalho ou quando íamos a pé até a padaria. Aperto os olhos mais um pouco e vejo lá no fundo a marginal, percurso este que fazíamos quase todos os finais de semana que íamos para os shows das nossas bandas em comum ou daquelas chatas que você fazia questão de escutar a todo vapor. Confesso que eu coloquei na minha cabeça que eu jamais voltaria a olhar para esta rua. Para este apartamento onde eu deixei todo o meu coração. Confesso que achava que sofreria ao ver o lugar onde eu mais sofri na vida. Mas, por incrível que pareça, eu sorri. Sorri com pequenas lembranças. Do dia que a gente chamou todo mundo para ajudar a tirar os pingos intermináveis no piso. Do dia que passamos horas no mercado fazendo a primeira compra. Da risada do Giba mais escandalosa do mundo acordando os vizinhos na primeira semana. Do cheiro de tinta que fez a gente dormir fora de casa porque não estávamos aguentando. Do móvel que a gente montou sozinho no dia que você tava puto da vida comigo. Da parede azul que eu tanto queria e que a gente pintou todo o teto. Dos pés das crianças marcando a parede e você putão com a sujeira. Das lembranças, essas são as únicas que eu vou guardar. Para ser sincera, eu só sorri porque eu lembrei do quanto eu sofri e do quanto eu consegui me reerguer depois de tudo isso.

Eu sorri porque lembrei que eu sofri demais na mão da sua família por ser apenas, e só apenas, quem eu era: incrivelmente incrível para vocês. Eu, por mais duvidoso que pareça, não guardo nenhuma mágoa de tudo isso. Muito pelo contrário: eu guardo aprendizado. E, pra falar a verdade, eu sorri porque eu aprendi que eu sou mais forte que a dor. Aquele velho clichê, mas real. Eu aprendi que meu corpo não diz nada sobre quem eu sou. Aprendi que minha cara feia por coisas erradas que eu escuto são mais do que autossuficientes para mim mesma. Aprendi que a roupa que uso não importa de nada quando eu realmente tenho caráter. Aprendi que o dinheiro jamais vai me comprar, assim como sua mãe comprou você. Aprendi que tem amores que não são amores: no fundo, eles só são desculpas para quem precisa ser salvo e não sabe como. Aprendi que o amor, quando comodo, não vale nada. Eu aprendi a me perdoar, a não me culpar e a me aceitar do jeito torto que eu sou.

Eu espero nunca mais sofrer pelo o que os outros me disseram. Pelas coisas que sua irmã e mãe me disseram. Porque eu sei que nessa vida, eu tenho muito pra viver e tão pouco pra me importar. E é por isso que eu não sofro, meu caro. É por isso que eu não deixo cair uma lágrima se quer por você. Não mais. Foram 11 anos chorando e me descabelando por você. Agora, é um peso a menos que eu vou carregar comigo. Foram 11 anos de um amor que eu dava mais do que tinha para oferecer. 11 anos de um amor que tirou tudo de mim e não me deu nada em troca.

E por que é fácil esquecer um grande amor? Não é fácil, é aceitável. Eu me descobri tanto depois daquele dia que me expulsou de casa. Eu aprendi tanto sobre eu mesma que eu até me assusto às vezes. As pessoas insistem em me chamar de falsa, de que eu quis apenas pegar todo o seu dinheiro e ter uma vida mais fácil, ou de que eu sou apenas uma gorda louca e doente que colocava você na merda. O engraçado é que as pessoas - inclusive você - se esquecem do quanto eu te ajudei. Do quanto eu tentei de salvar e te dar um pouquinho de algo que você nunca teve e nunca vai ter: a felicidade.

Quando você finalmente deixou de deitar do meu lado durante a noite e de assistir filmes de menina comigo na madrugada, a vida felizmente voltou a fazer sentido para mim: eu realmente não preciso de alguém como você para ser feliz. Porque eu não preciso de uma metade para me completar: eu sou inteira por si só.

Eu preciso só de uma coisa: eu mesma.

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