Sobre mãos quentinhas



Eu poderia te ouvir cantar Apanhador Só por horas, que mesmo assim não seria o suficiente para me cansar da sua voz. De todas as vezes que fugi das minhas vontades, eu sempre pensei em te encontrar; em me perder no teu compasso; em segurar tuas mãos, beijar teus olhos e olhar a covinha do lado direito do seu rosto. Arrependo-me por todas as vezes que despistei o meu desejo, com medo de não saber rodopiar nessa dança que só você consegue conduzir.

Eu poderia passar noites bebendo do mesmo vinho de ontem só pra te ouvir contar os seus casos, devaneios e a palavra "saca?" sempre que termina um pensamento ou chega à uma conclusão. Morreria cada segundo de ternura se acordasse durante as madrugadas frias e pudesse ver seu corpo, moreno e quentinho, esperando um carinho qualquer.

Eu poderia dançar toda a imaturidade do meu ser, se todas as minhas voltas me levassem pra perto do seu colo. Consigo sentir, ainda, o vento frio que entrava pela janela aberta, que fez estremecer o meu umbigo e a ponta da orelha, enquanto você permanecia junto a mim, me fazendo crer num estado louco de céu e prazer.

Eu poderia, mas não consigo explicar o primeiro sonho que tive com você. Mas, desde aquele dia, teu ser e todo o seu mundo continuou comigo. Que invadiu meus livros, minhas poesias esquecidas, minhas músicas, meus vestidos, meus pulmões e todo e qualquer lugar que me fizesse sentir sua presença.

Eu poderia ficar horas passando a mão em suas costas descobertas, em seu cabelo ou em suas bochechas tomadas pela barba bem aparada, só para inalar o cheiro gostoso da sua pele. Perco-me nas horas, tentando entender se tudo faz sentido, quando lembro da arte do seu jeito; do seu sorriso bom; dos seus olhos fechados perdidos em prazer.

Eu poderia me fechar em pensamentos pra contar todos os passos que dei pra chegar perto de você, mesmo com todo o meu jeito estabanado e frio de ser. Mas, nunca conseguirei parar de lembrar da tua face; do teu hálito fresquinho e da forma como segura minha nuca em suas mãos.

Eu poderia falar tudo o que imagino quando lembro das sensações boas que me fez sentir. Apesar de parecer tão pouco, você me fez soltar os dedos da mãos; a parar de cerrar os punhos. Fez-me pintar os lábios, a perfumar o pescoço e a soltar os cabelos; me fez desaparecer; transcender; me fez ser a menina capaz de sobrevoar o próprio abismo e de preencher as lacunas abertas de dor; me fez ser.

Eu poderia esquecer, assim, tão fácil como comecei a pensar. Mas, eu não consigo. Eu não sei esquecer teus olhos escuros; a pintinha perto do seu nariz; as suas mãos macias. Eu não consigo. Eu não quero. Eu não preciso (te) esquecer.

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