sobre voltar à vida;



uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se continuasse com o meu jeito. 

eu acreditei muito nisso. eu sempre levei muito a sério o que as pessoas diziam sobre e para mim. passei anos da minha vida me julgando, me menosprezando e me autossabotando, achando que eu realmente era alguém que não tinha nada de bom para oferecer. eu acreditei fielmente quando todos se voltaram contra mim por eu ser desse jeito. não sei exatamente qual jeito é esse, mas me culpava. era uma culpa amarga, que eu não sabia porque sentia, mas sentia. e talvez seja por essa mesma culpa que eu sempre aceitei tudo o que era me dado. aceitei ouvir os xingamentos de namorados, os socos no estômago, o olhar não correspondido, a traição a flor da pele, as gritarias constantes, "você precisa mudar", "você estraga tudo", "para de ser assim", os medos do fracasso, as imposições do corpo perfeito, aceitei tudo. baixei a cabeça pra todos, porque sempre me coloquei como a errada. a menina nervosa que estraga tudo. que não consegue manter um relacionamento. que não consegue ficar quieta quando algo lhe machuca. que não consegue ser feliz todos o dias. a menina que sempre chorava antes de dormir porque era o único lugar que se sentia ela. mas isso me afogava. eu me afogava todos os dias por não conseguir ser do jeito que queriam que eu fosse. me perguntava diariamente o que eu deveria fazer. como eu deveria ser. não é uma questão de ser aceita, mas uma questão de que era a única maneira que as pessoas me deixariam em paz. eu não consegui. eu não consegui mudar. não consegui gostar de coisas forçadas só porque todos gostavam. não consegui deixar de lado quem eu era para agradar a família dos outros. 

uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se não fosse ficar com aquela pessoa em questão.

eu acreditei muito nisso. eu sempre levei muito a sério o que meu coração sentia e era como se eu fosse fiel a mim mesma. e fui. fiel a quem eu sou e a quem eu amei. e eu nunca consegui mudar esse jeito. nunca consegui disfarçar que eu não tava bem, que eu não gostava de piadas maldosas ou de comentários escrotos. nunca consegui. nunca. e eu perdi muito por ser assim. e aí continuei a me culpar. continuei tentando ser quem eu não era. tentei. tentei por dias ou meses, não me lembro. mas tentei. tentei ser uma ana clara que as pessoas não reclamassem. porque sempre teve uma reclamação. sempre. s-e-m-p-r-e. "nossa, essa menina vive de cara feia", "como você consegue estar com ela", "você precisa mudar", "você é muito estressada". eu já tinha me acostumado a isso. e eu parei de me importar aos poucos. ok, eu confesso que a terapia me ajudou muito em me conhecer. ficar sozinha durante um tempo me ajudou ainda mais. 

uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se eu fosse assim. mas o nunca é muito tempo e a vida é rápida. e eu aprendi a me aceitar, aprendi a me julgar menos (ainda cometo erros, é claro), aprendi a me respeitar. e aprendi que eu posso ser quem eu quero ser, que não é isso que faz de mim uma pessoa ruim ou não. tá no caráter, na essência. é uma coisa que ou você é ou você não é. ninguém consegue sustentar uma mentira por tanto tempo. ninguém. ninguém consegue fingir ser uma coisa por muito tempo. e eu sei disso porque vivi isso. eu vi isso. e eu vi que é possível perder tudo e ganhar de novo. porque o universo devolve aquilo que merecemos. quem diria que eu, depois de tantas idas e vindas, iria conseguir sorrir de novo? quem diria que eu iria conseguir fechar os olhos pra beijar alguém e sentir que o mundo inteiro parou de rodar naquele instante e que não existe passado, não existe nada, só existe o ali, aquele momento em questão. e você fez isso na minha vida. você surgiu desavisado, como quem não queria nada, mas quis, e me quis do jeito que eu sou, e nunca me julgou por isso, e isso me deixa bem, confortável. você entende, você suporta, você não me impõe limites. me incentiva. me dá bronca quando não digo que não estou bem mas que é uma bronca sincera de quem quer o meu melhor. me faz perder o medo. me faz perder a vergonha. me faz acreditar que eu posso, que se tem uma coisa que posso é poder. me faz sentir que a vida pode ser melhor. que ela é melhor. que dói, mas que dá. que se a gente vai junto, se apoiando, do nosso jeito, dá. me faz acreditar que nem tudo está perdido e que eu não sou um monstro como disseram. me faz acreditar que eu sou capaz. que dá. que dá sim pra viver e não apenas sobreviver. você me faz acreditar que o hoje é bom. que mesmo eu tendo problemas com ansiedade e tristezas eu não sou uma má pessoa. me faz acreditar que dá, que dá sim pra se apaixonar por alguém que você conheceu há quatro meses. que dá. que sempre dá pra ser. basta a gente querer. e fazer. você veio pra me mostrar que um relacionamento é muito mais do que uma troca de amor. é respeito. é carinho na mão enquanto o outro dorme. é silêncio quando precisa. é "cheguei" ou "vem logo". é buscar água pro outro. é dormir todo torto porque os dois não cabem na cama de solteiro. é abraçar durante a noite e se sentir a pessoa mais sortuda do mundo por ter aquele ser cuidando do seu sono. é fazer o bem ao outro sem querer nada em troca. é rir quando o teu cílios passa na bochecha. é você. e isso basta.

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