Soco


Hoje eu perdi a cabeça. O controle. A razão.
Tudo o que eu sempre desejei fazer melhor, fiz desandar dez casas. Andei dias descontroladas, dando passos sozinhos e inseguros, tendo medo da sombra, do cheiro e dos olhares alheios. Ouvi o que não queria. Falei o que queria, mas não devia. Fiz tudo errado, tentando fazer o certo. Almejei demais. Sonhei demais. Perdi todas as vezes. Não acertei nada.
Nenhum ponto. Não avancei nenhuma casa.
Hoje eu perdi minha identidade, o meu sono e a minha segurança.  A partir de hoje, não vou fazer nenhum movimento coerente. Nada será justificado.
Eu aguentei muito. Eu ouvi demais. Tive de menos. Nada sobrou pra mim. Nada.
A culpa nunca foi do seu alcool, pai. A culpa sempre foi minha em não aceitar que você sempre foi um bêbado.
A culpa sempre foi minha de achar que você iria mudar;
A culpa é minha e só minha, em achar que você ainda pudesse ser meu herói. Que você ia me fazer dormir a noite com a brincadeira que você inventou pra mim.
A culpa foi minha de acreditar que as pessoas mudam. Que elas crescem e que se tornam melhor.
A culpa foi minha de ver você se destruir todos os dias sem eu conseguir te parar.
Hoje eu ouvi de você o que eu luto todos os dias para não ser. Eu ouvi mentiras, injúrias e ofensas por algo que eu não sou e nunca serei.
A culpa é minha de não ser boa o suficiente. De não ter nada. De ser um nada.
Hoje eu descarreguei toda minha raiva no meu soco.
A culpa foi minha
é
e sempre será minha.

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