Ensaio sobre a (minha) partida

Não há um dia se quer que eu consiga pegar no sono sem pensar nas coisas que me cercam. Também me vejo refazendo os meus passos para solucionar o que tanto me aflige: “onde foi que eu errei?”

Pra ser sincera, talvez eu não tenha errado. Talvez, tenham sido somente os caminhos desviados. Ou, ainda, aquele velho clichê de que tudo acontece por algum motivo. Eu juro que tentei encontrar este motivo, mas (in)felizmente não encontrei.

Mas, por outro lado, tenho encontrado outras tantas coisas.

Encontrei a solidão, novamente. Mas não é aquela solidão passível de ser solucionada ou preenchida por alguma alma divina. Não. É aquela que eu mesma quis entrar, pra escapar dos meus anseios, das minhas dores e da minha angústia. Há quem diga que esta solidão traz tudo isto pra dentro do meu ser, mas, eu ainda aposto na ideia de que ela faz com que tudo fique ainda mais claro.

Encontrei o frio durante a noite. Quando meu bem foi embora, eu descobri que dentro do meu quarto, o ar é cada vez mais congelado, e o abraço dos meus braços não fazem par com o inverno que brota dentro de mim. Deve ser por isto que eu tenho tanto medo de pegar no sono, de cair no esquecimento da madrugada e não acordar no dia seguinte.

Encontrei a sua falta. Quando despistou o meu amor e levou tudo o que eu tinha de bom para oferecer, eu descobri que sentia muito a sua falta. De ligar a televisão e assistir pela milésima vez o seu filme preferido. Ou talvez, sentir falta daqueles jogos idiotas pelo qual você me trocou. Talvez, porque um dia você também tenha sido trocado por outros jogos, outros beijos e outros abraços.

Encontrei a dificuldade de enfrentar os dias. Enquanto o mundo inteiro me abraçava, eu ainda sentia falta do seu compasso, do seu olhar e das suas mãos quentinhas. De chegar no trabalho e reclamar de um estranho qualquer, enquanto fazia uma brincadeira besta com o meu incansável jogo de palavras.

Encontrei meu rosto sem lágrimas. Apesar de ter me deixado, eu ainda tive motivos para sorrir. Eu pude finalmente usar o corte de cabelo que eu queria, a saia rodada de flor que eu amava e a face sem decorações. Deve ser por isso que o sorriso, mesmo que com a dor e a solidão, ainda permanece no meu ser.

Encontrei, finalmente, a hora de dizer adeus. Demorei muito tempo para entender o real motivo da despedida, mas no fundo... no fundo eu sempre soube que os nossos passos nunca seriam em conjunto. Que os nossos sonhos seriam solitários e que a sua vida, seria vaga, mesmo comigo. Deve ser por isso que o ditado diz que as pessoas têm o que merecem.

Eu sinto falta de ter com quem conversar sobre as minhas besteiras, de ter alguém pra me deitar durante a noite e me fazer esquecer dos meus medos e, principalmente, de sentir alguém me amar como se o amanhã fosse demorar muito tempo pra chegar. Mas, o que eu mais sentia falta, era de ser quem eu sou, de ouvir o que eu gosto e de partir sem precisar voltar.

Ainda não é fácil. Nunca será fácil entender o porquê da sua partida.
Ainda não sei recomeçar. Nunca será tão fácil começar do zero e esquecer o amor que escancarei.

Eu ainda sinto a sua falta, mas é hora de partir e esquecer esses meus pensamentos que me remetem aos nossos dias, aos nossos encontros e as nossas coisas. É hora de encontrar o que eu sempre procurei. De encontrar a minha própria maneira de ser feliz, mesmo que para isso eu tenha que esquecer tudo aquilo que você me fez sentir.

Ensaiei tanto por esta partida, não aquela com jogadores e rivais no mesmo lugar. Partida pra longe e para dentro de mim. É hora de me perder nesse mundo e ser tudo aquilo que você não me deixou ser.

É hora de ser. Hora de ser assim, tão Ana Clara de ser.

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