Teus olhos verdes;

Eu lembro como meu pai era na minha infância. Seu tênis all star preto, o corpo magro e aquele bigode que eu adorava. Meu pai era um bom pai. Eu lembro da sua alegria ao me levar todo sábado para o zoológico perto de casa, só porque eu amava ver aquele leão que mal levantava. Ele me apoiava na grade para que eu o chamasse, e eu dizia: "Pai, acho que ele não gosta de mim". E, ele, morrendo de rir por dentro só pra dizer "Como não gostar de você, meu docinho?". Eu lembro de passar a noite inteira montando quebra-cabeça com ele. Eu lembro quando a gente se mudou pra sua cidade natal para que tentássemos uma vida nova. Lembro do meu pai chorando porque não podia me dar um presente de aniversário. Lembro dele chorando por não saber o que teríamos no dia seguinte para comer. Lembro dele se culpando pela vida difícil que nós estávamos vivendo. Eu ainda lembro quando ele saia de madrugada pra trabalhar e da minha mãe tampando os meus ouvidos para eu não chorar, porque eu não queria outra pessoa que não fosse ele. Eu lembro quando ele cantava Mamonas Assassinas para me fazer sorrir. Quando voltamos para cá, lembro da gente andando na rua de mãos dadas e eu perguntando do que a sombra era feita. E ele sempre dizia: "É feita de você, meu docinho". Eu lembro de ficar deitada na cama dele pulando igual pipoca pra ele falar as cidades e os estados brasileiros, porque eu achava lindo ele saber geografia. Eu lembro de não conseguir dormir enquanto ele não me ouvisse contar a história da branca de neve, que ele dizia ser "docinho de neve". Meu pai era uma pessoa boa. Sempre se preocupou com o meu bem-estar, em me fazer carinho e fazer massagem em meus pés, porque sabia que isso me fazia pegar no sono. Eu lembro de quando andávamos na calçada e ele me colocava pro lado de dentro, dizendo: "meu docinho, você é meu doce e tem que andar protegida". Lembro dele inventado o jogo de "Você prefere..." só pra me fazer rir e ficar mais tempo com ele deitada na cama. Meu pai era meu herói. Meu pai era o cara pra mim. Eu lembro das coisas boas que ele fez para mim. Eu lembro do homem que ele era para nós. Ele nunca levantava a voz, se quer, virava as costas quando eu falava. Mas o tempo passa. A vida acontece. E eu não sabia que por trás deste meu herói, havia um vilão. E um vilão a qual eu tenho que lutar todos os dias por ele, já que ele se entregou. Eu lembro de ver meu pai bebendo sua pinga diariamente, mas nunca em doses tão grandes como agora. Eu não consigo mais reconhecer meu pai. Eu não consigo me lembrar qual foi a última vez que consegui abraçá-lo e, muito menos, falar com ele. A pinga tomou conta do seu ser e da sua vida, e eu já não sei mais o que fazer. É uma dor que ninguém tira do meu peito. De ver o homem da minha vida caído no chão, derrotado e encarcerado por causa de um copo de pinga. Dói chegar em casa e ele desviar os seus olhos dos meus. Aqueles olhos verdes que eu me apaixonei desde o início. Dói olhar para o quarto agora, agorinha mesmo, e ver ele todo machucado por mais uma dose. Eu sinto saudade do cheiro que ele tinha. Aquele cheiro de pai, gostoso de sentir, gostoso de estar abraçada. Eu sinto falta de quem ele era pra mim. O meu amigo, o meu bem querer. O meu porto seguro. Eu lembro de todas as coisas boas que ele me fez, mas a mágoa pela bebida e pelas coisas ruins que ele me fez passar não saem da minha mente, quiçá do meu coração. Eu tenho raiva. Eu tenho repúdio dessa droga, dessa coisa que destruiu a imagem linda que eu tinha dele voltando para casa. Eu tenho vontade de desaparecer toda vez que sinto o cheiro da pinga impregnada em seu corpo, em sua roupa e em sua vida. As pessoas não entendem o meu rancor, a minha mágoa e a minha angústia. Mas eu ainda não aprendi a conviver com essa pessoa que ele escolheu ser. Que lança desacatos a sua mulher e a sua única filha. Que briga, que se arrasta, que caí e se esvai. Eu não sei esquecer a dor que ele me causa toda vez que cai ao meu lado na rua de tão bêbado. Eu não sei. Eu não saberei. Eu só queria voltar a ser criança pra nunca deixar o meu pai ir embora por causa de um copo de pinga.

Eu só queria continuar lembrando de seus olhos verdes sem o veneno da raça.

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