Prometo não acertar (sempre)



Não quero caminhar sem tropeçar, ou pessoas felizes o tempo todo, nem mesmo vitórias sem o choro no final. Não quero apenas continuar vivendo, o tédio, a obrigação de ter que viver a rotina apenas por viver. Não quero ouvir "é a vida", "vai com fé" ou o "era pra acontecer". Não quero ter que me adaptar aos pratos saudáveis. a saladinha fresca, a cama casta ou o sexo virgem. Não quero ver o sol todos os dias - até porque eu não posso tomar sol, as manchas estão cada vez mais presentes em minha pele. Não quero andar em linha reta sem me desviar um pouquinho para fazer uma curva sinuosa à frente. Não quero o branco imaculado, ou o preto liso sem as cores de um tecido de chita. Não quero ouvir apenas os poemas perfeitos e a ortografia ilesa sem os erros comuns de que não aprendeu tudo na vida. Não quero aprender apenas com os professores fechados em uma sala de aula, sem ouvir as vozes das ruas. Não quero a palmadinha satisfatória nos meus ombros dizendo "vai lá que isso passa". Não quero me satisfazer com pouco, muito menos reter euforia. Não quero tocas os lábios sem tocar a língua, a língua sem prazer, os beijos sem frescor, os olhos sem fechar. Não quero fugir, sempre, do que me dá medo. Não quero ficar sem falar com pessoas por pura mágoa ou por achar que eu estou sempre certa. Não quero esperar por desculpas ou me acomodar no que me faz doer. Não quero sair sem vida de você nem que a morte esteja atrás do seu beijo.

Quero o que não cabe no singular. Quero o que não se aprende nos manuais, nem nas letrinhas miúdas que a gente nunca lê. Quero o rosto em lágrimas, sem maquiagens, as marquinhas de espinha, a mão descuidada, as unhas roídas. Quero pegar a estrada arriscada que me acidentei sem medo. Quero ouvir a chuva, sentir o cheiro do vento, os dedos entrelaçados, o animal de cada instante. Quero ainda tentar o que ninguém faz: olhar para o imperdoável e aprender com ele, gastando feito louca todas as minhas possibilidades.

Quero, sobretudo, aquilo que me assusta e me faz tremer nas minhas longas madrugas de insonia. O abismo que me cerca em segredo, chegando desavisado quando eu mais preciso de um céu para voar.

Quero o entrelaço das suas pernas, o seu pé quentinho quando estamos tentando pegar no sono. Quero a maneira como o suor escorre no centro do seu peito e a forma indescritível de como você me olha nos olhos e tudo enxerga.

Quero tudo e não quero nada.

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