Inóspito

"- Se acontecer alguma coisa comigo, você vai ficar com remorso".

Eu passei a madrugada inteira pensando nesta frase. Sonhei as piores coisas e também as melhores que se poderiam sonhar ao redor destas palavras. Há dias eu não pensava nisto, era como se fosse normal, uma simples operação de hérnia não iria ocasionar finais trágicos. Fiquei nervosa das outras vezes que ouvi sobre isto: "Parem de pensar no pior!". Mas eis que o dia de hoje chegou. É como se todo o peso de uma culpa caísse sobre meu corpo, fazendo com que meu mundo desabe. Eu pensei que não fosse ficar assim, afinal, a grande mágoa que aqui rodeia sempre falou mais alto do que qualquer outra coisa. Eu nunca entendi - ou quis entender, na verdade - o porque de tantos erros. Os motivos para que o álcool fosse melhor do que a companhia da família. Ou até mesmo o porque de sempre ouvir palavras duras, e nunca uma palavra de conforto. Enquanto comecei a minha rotina hoje, meu coração continuou acelerado, as mãos foram ficando cada vez mais tremulas e os olhos cheios d'água. Agora, no trabalho, é como se os minutos demorassem pra passar. Cada segundo é um nó, é um elo que não se desfaz na minha garganta e um suspiro leva quase uma década para passar. Tanta coisa passa pela minha cabeça. Talvez, agora, eu esteja com medo de ficar com remorso. Mas, o que eu sinto é que eu deveria não ter errado tanto, também. Que eu deveria ter sido mais presente e menos cabeça dura. Que as coisas acontecem porque tem que acontecer. Que o erro dos outros não justificam os meus. É como se um filme passasse pela minha cabeça projetando um futuro inóspito e sem razão. É como se esse orgulho ferido doesse cada vez mais. Eu não consigo me concentrar, não consigo controlar o frio que desce e corre pela minha espinha. O tique na perna aumenta a velocidade enquanto fico sem notícias. É uma angústia que ninguém tira do peito. Ninguém...

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1 comentários:

  1. "...É como se um filme passasse pela minha cabeça projetando um futuro inóspito e sem razão. É como se esse orgulho ferido doesse cada vez mais. Eu não consigo me concentrar, não consigo controlar o frio que desce e corre pela minha espinha. O tique na perna aumenta a velocidade enquanto fico sem notícias. É uma angústia que ninguém tira do peito. Ninguém..."

    Adorei Ana.

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