daqueles dias intragáveis



hoje acordei com o gosto do intragável.
intragável é continuar aqui. não mudar. aguentar. sobreviver. permanecer.
mesmo que eu tente, mesmo que eu faça o suficiente, mantenho tudo como está para não correr o risco de machucar de novo esse meu corpo e coração tão desgastados.
intragável é não conseguir perdoar. não ilibar.

só há críticas, apontamentos e ataques.
ninguém me cria, não me refaço, não imagino dias melhores.

intragável é essa minha sina de não acreditar.
deixo estar.
não consigo me mexer, não consigo querer a ferida se for através da ferida que chegarei à cura.

cansei de ser cautelosa, prevenida, sem exageros, proporcional ao que me dão.
não quero. não admito. não me admito.

sempre as mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos atos, os mesmos movimentos.
sempre igual. sempre o mesmo.

intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.
meu texto que não revolve, a decisão que não transforma, o beijo que não arrepia, o sexo que não faz gemer, gritar, saltar.

intragável é não querer estar apaixonada.
nem por uma mulher, por um homem, por um gato, por um cão, por um cheiro, por um sol, por uma casa, por uma pele, por um sabor, por um sonho, por um trabalho, por um caminho, por um desejo, por um pecado. apaixonada. inconsequentemente, desvairadamente. sem parar. apaixonada.

intragável é o que não é extraordinário. o intragável é gerúndio.
viver é morrer aos poucos. isso me é tão intragável.

é tão intragável me sentir assim, querer assim, existir assim. até ao final das vísceras, até ao fundo dos ossos.intragável é continuar a sofrer. intragável é o que não é demais.
e só o que não é demais é meu erro.

intragável é não errar, disso estou certa.
mas mais intragável é não conseguir amar.
(sinto falta de tragar o amor e realmente viver dele)

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