Quando o pior do mundo é a semivida



O que é mais pretensioso do que acreditar na vida? A minha esteve acabada, mas ainda há tanto para viver. Eu deixei para trás a história de um final insuportável, daqueles de novela mexicana. Eu soube, desde quando pisei naquele apartamento que eu não amava mais o grande amor da minha vida, e talvez tenha sido por isso mesmo que eu ficava tão impaciente: para mostrar a mim mesma que ainda havia a possibilidade de decidir o meu destino além do que o destino tinha decidido - e reservado - para mim. Eu quis fazer da vida o acaso certo para o meu coração.

Mas eu não consigo calar a vida. Vivi em guerra sem quartel durante esses vinte e cinco anos. Vinte e cinco anos vendo pessoas acreditarem no amor e sofrerem por ele. Vinte e cinco anos vendo o que uma bagagem, história e amor podem fazer com alguém. O amor, doentio e irracional, como todos os amores, acabou me encontrando por dentro. Tudo que fiz foi por esse amor, para vencer os dias. Mas eu fui ficando cada vez mais derrotada. Havia, claro, minhas fugas do costume. Um show, um livro, um copo de cerveja. Para esconder os meus silêncios, para não ter que suportar a vida, para não me obrigar a seguir em frente, diante dele, a me calar. E fui me calando. Comigo, o amor também silenciou, como uma fera que, aos poucos, com o cair da idade, vai se deixando cair, sem perceber.

Eu insisto. Eu insisti na vida. Sempre na guerra, mas agora em silêncio, na surdina, cada hora com uma estratégia fria de combate. Aquele cara deixou de ser o meu amor e passou a ser apenas e só apenas aquele passado que a gente tenta apagar e não lembrar que viveu.

Quando é que alguém deixa de ser a nossa vida para passar a ser o que nos impede de viver tranquilamente?

Só a minha teimosia em querer tudo da vida ainda me mantém viva. Uma teimosia tão grande que me segura aqui nesse um quarto de século que já vivi. Duas décadas e meia. Vinte e cinco vezes trezentos e sessenta e cinco dias, com uns dias a mais da minha vida desperdiçada assim: sendo culpada pelos problemas dos outros, levando a vida de todos nos ombros e ninguém me segurando por completa.

Mas eu acordei.
Antes um minuto no fio da navalha do que a vida toda sem uma única falha.

E é tão humano quem eu sou. E é isso a vida, só pode ser isso: algo tão humano que pode acabar; algo tão humano que pode magoar; tão humano que pode errar. Sou feita de uma massa de erro, da massa do falível.

É com as fendas que construímos as casas. É com as lágrimas que construímos o que irá nos proteger na dor. Sei que me falta muito para ser quem quero ser, mas é assim que me sinto imaculada: cheia de insuficiências.

É o que não consigo ser que me faz ser o que sou.

E eu tento. Eu tentei. Eu tentei tanto, meu Deus. Tentei de tudo. Mesmo. Tudo. Fui até o fim do que dói quando foi preciso. Fui até o final dos meus sonhos. Fui até o fim de mim mesma. Arrisquei tudo. Coloquei todos os meus dias em questão.

O pior do mundo é viver nesse limbo cruel. Da semivida, onde a maioria esmagadora das pessoas repousa sobre uma cama de coisas razoáveis: o emprego razoável, a casa razoável, as sensações razoáveis, até mesmo a felicidade razoável.

Quando o pior do mundo é a semivida, percebo que evitar o sofrimento é como se eu estivesse presa ao abismo da própria morte: me abdicando de ir à procura do que pode me magoar pelo simples fato de achar que toda história será sempre igual.

Mas eu lembro que a vida é possível. Existe a euforia possível. O prazer possível. Os dias possíveis. E só depois que percebo que eu existo para além de todas as possibilidades. E eu acreditava que estar viva era aquilo: tudo em dose média, dose suficiente, doce razoável e uma vida servida em parcelas pequenas. Eu sorria porque sorrir era mais fácil do que mostrar minha tristeza, abraçava satisfeita com o que cruzava meu caminho, tinha a convicção de que sendo assim todo o meu percurso se faria.

E só depois eu percebi que eu existo para além de todas as satisfações.
Que eu continuo aqui.
E só isso importa.

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