sobre as coisas que eu não sabia
isso também passa
"Era dezembro, ainda me lembro: o Sol..."
Fez sol naquela quarta-feira, as duas da tarde, enquanto eu corria pra pegar o 249. Fez sol no sábado, um mês depois, no parque da luz. Fez sol naquele sábado. Para ser mais exata, em todos os dias dezenove de dezembro fez sol. Com chuva. Mas não fez sol na segunda-feira de manhã, no dia que todas as minhas coisas estavam amontoadas no quarto, na sala e na cozinha da minha mãe. Aquele dia choveu não só no quintal, mas dentro do meu coração. É como se esse dia, tão cheio de não significados para as pessoas, descrevesse exatamente como foram os últimos dez anos da minha vida. Apesar de bonitos, cheio de tempestade. É incrível se dar conta de tanta coisa que já vivi, embora os quase vinte seis anos sejam tão pouco. Do que perdi. Passou. Mas também do que chegou. E aí entram parenteses porque contarei mais tarde. Por hora, a partir daquele ponto, dia dezenove de dezembro marca o dia que eu renasci. Do abismo que fui, voltei, e consegui encontrar uma única possibilidade de escalar. É engraçado como a gente não percebe o quão no fundo estamos do abismo. Do quão perto do precipício também. E de como não percebemos as milhões de possibilidades que temos de sobrevoar o próprio abismo. Deve ser porque há uma linha muito tênue entre a liberdade e a vontade de querer ficar. Então, recapitulando, dezenove foi, e é, agora, um dia para me lembrar das coisas que eu podia. Que eu posso. Nossa, quem diria que eu conseguiria sobreviver a esse dia sem angústias. Ansiedade. Medo. Receio. Mas passou. O amor pode passar, sim. A saudade também. Nossa, como a saudade pode passar. Custa, mas passa. Esse amor e a saudade só passam quando você percebe toda a dimensão de vida que lhe sobrou. O quão grande pode ser o recomeço. E o quão boas podem ser as perdas. Perder. Como que se perde algo que nunca foi teu? Como que faz para notar que algo, de fato, nunca foi teu? Custa. Custa muito. Custa algumas horas de dor. Um milhão de lágrimas e mais um pouco. Muita, mas muita falta de ar. Dor no peito. Nos ossos. No último fio de cabelo caindo da sua cabeça. Mas a gente nota. A gente finalmente percebe. A gente aprende que nada dura pra sempre quando uma pessoa não quer. Quando não vale mais a pena o toque. Quando o amor pronunciado é tão forçado. Quando tudo é uma chance para uma nova desculpa. Que me desculpe o poeta, mas mentiras sinceras realmente não me interessam. Não me interessava quem era no telefone as duas da manhã. Não me interessava as inúmeras questões de prova que corrigi, mesmo não sendo minhas. Não me interessava o melhor prato de comida que me fazia. Não me interessava os presentes caros, os shows, os carros, o sítio, a privada de dois mil reais que ainda não paguei ou a porra do apartamento de 90m². Não me interessava se tinha ou não dinheiro no mês. Não me interessava nada. Nada além da paz de espírito que procurei sentir naquele colo. Como procurei a paz, meu Deus. A gente procura por todo lugar algo que estava sempre na gente. Porque a gente quer o mais difícil. A reciprocidade. A empatia. O olhar no olho sem cobranças. O simples beijo de boa noite. A mão encostada quando o medo fala mais alto. Difícil, não é? Mas não impossível. Impossível é viver uma vida de tantas idas e vindas e não aprender fazer morada. Não aprender a deixar o outro ser nossa extensão de vida. A gente perde tempo demais achando que podemos mudar a vida de alguém. Tornar as dores do outro mais leves. Tornar o passo menos apertado. Mas a gente não consegue cuidar de alguém sem antes olhar para nós. E a vida te mostra isso quando tudo já estiver perdido. Mas mostra. Mostra que as lembranças vão passar. A dor. As lágrimas. A culpa. O remorso. Tudo nessa vida vai passar. Vai passar, é claro, quando a gente se permitir. A gente precisa saber a hora de deixar o outro ir. Mesmo você ainda sentido raiva de todas aquelas mentiras. Mesmo você tendo vontade de matar o ser humano que mentiu tão descaradamente na sua cara. Porque a gente sabe. A gente sempre sabe. Principalmente quando é a hora de desatar os laços. De ir embora. De finalmente deixar ir. Teu coração nunca mais será o mesmo. Mas ele vai aprender de novo. Vai deixar passar toda tempestade pra trazer, de novo, a mesma vontade de infinito.
Faz sol nessa terça-feira. Daqui a pouco vai começar a chover.
Dezembro também vai passar.
todo fim é bom
Esses dias, me dei conta de que passou um ano. Um ano do meu
último fim. Existe um mito de que o fim acaba com todas as possibilidades. De que a
gente vai ficar petrificado com o que poderia ter sido. Do porque ter acabado.
Não preciso nem ressaltar que tal mito foi minha verdade durante algum tempo.
Eu vivia esse mito como quem vive um medo de morrer.
O fim era a morte, na minha cabeça.
Mas quando a gente está logo ali, no comecinho deste fim,
não tomamos conhecimento de que ele, muitas vezes, é libertador. O fim reafirma
que a gente precisa seguir em frente. Nossa, como precisamos seguir em frente.
Mudar de endereço. Matricular-se em algum curso. Conhecer gente nova. Sair para
outros lugares e aprender a decorar outros nomes de ruas e bares e
restaurantes. E nesse começo de mudanças, a gente percebe que precisamos
aprender outras funções para o nosso coração além de permiti-lo apenas sentir.
O fim muda o estado das coisas.
É como se a gente aprendesse na marra alguns ensinamentos.
Algo como: “você precisa entender porque está passando por isso. E por isso eu
sou bom: porque você vai aprender a entender”. Ele vai te ensinar a entender.
Vai te permitir não voltar atrás. Vai te mostrar que é possível cortar laços.
Vai te ensinar que algumas coisas são necessárias, outras não.
O fim de mostra que o seu momento é hoje.
Antes do fim, a gente vive presa ao passado. As amarras do
que vivemos. Também ficamos com o pensamento no amanhã. Que a gente não vai
aguentar se levantar amanhã. Mas, calma. Nós vamos. Porque temos muito o que
viver no aqui e no agora. Clichê, eu sei. Mas hoje tem muita coisa pra se
fazer. Foi assim que eu aprendi a superar o fim: aceitando viver um dia por
vez.
O fim não existe pra nos colocar sobre uma cama e desejar
que a vida termine.
É claro que nos primeiros dias, é difícil. Meu deus, é difícil para um caralho imenso. É uma faca quente entrando frequentemente dentro do seu coração. Mas aí você percebe que é no fim que a vida se inicia. A gente ainda chora muito. A gente não se conforma. A gente vai atrás da dor. A gente fica remoendo pra saber onde foi que erramos. Se é que erramos. Se é que não era o momento errado. Eu sei que dói. Dói demais. Parece que o peito vai explodir.
O fim te permite deixar as coisas para trás.
Você quer deletar as mensagens, fotos, sensações, cheiros,
gostos e tudo. Eu sei, também quis – e fiz. Mas, olha... pra quem está aqui do
outro lado, apagar ajuda muito. Há quem diga que bloquear qualquer lembrança só
desperta ainda mais dor. É você lutando contra você, mas se você está disposto
a lutar contra si próprio, é uma forma de deixar ir. É permitir que seu corpo
descanse um pouco, inclusive do fim. E foi só assim que eu consegui aceitar.
Foi só assim que consegui continuar: deletendo da minha memória toda e qualquer
lembrança, inclusive as boas. Não é um decreto: tem gente que consegue, tem
gente que não. Eu só funciono assim. Foi só assim que consegui me permitir.
O fim costura na gente outras possibilidades – e caminhos.
É como se ele dissesse: “e se você tentar esse caminho
agora?” Porque a gente precisa de outros caminhos. A gente precisa entender o
amor de forma diferente. A gente precisa experimentar, de novo, a sensação de
quando você está gostando de alguém e aquilo faz suas pernas bambearem, o
coração palpitar, o suor virar parte do seu sangue? A vida é sobre os ciclos e sobre o que podemos fazer com
eles e dentro deles.
O fim é um ciclo que precisamos navegar por ele.
Aproveitá-lo. Olhar no olho. Fazer perguntas. Tirar o melhor dele. Refletir sobre tudo até aqui. Mas
sem dor. Porque o fim traz muita coisa também. Autoconsciência de si, do mundo.
Entendimento sobre relações, o seu próprio estar nas relações, como seguir
menos doloroso, até porque sempre vai doer um pouquinho. Quer dizer, nosso
coração sempre fica apertado, machucado e cheio de remendo, já que o tombo foi
feio. A gente até pode seguir com o coração gelado, mas temos que seguir.
Continuar. Correr um pouco dessa estrada que é a reconstrução. Andar e
continuar andando nessa estrada que é olhar-para-si com mais disposição. Até
começarmos a correr a partir do ponto do fim para chegar do outro lado, o
recomeço. É como uma corrida ao contrário. Contra seu próprio fim.
E quando você começa a correr, não existe cansaço para si
mesmo. O fim não permitirá mais isso. Não se trata de fugir. Trata-se de deixar
para traz o lugar que você foi deixado. Trata-se de aprender a olhar para
frente, para os lados, ao redor, ao céu, para si mesmo como o centro do
universo, repetindo: “eu ainda estou aqui”. Porque a gente continua aqui. Mesmo
com tanta coisa ruim. Mesmo a memória sendo traiçoeira e te fazer lembrar
daquele sorriso gostoso ou daquele abraço apertado que era o teu porto-seguro.
Mas isso passa. E outras coisas aparecem.
Depois do fim, você se dá conta.
Sim, eu dei conta. 365 dias e 8760 horas depois, eu dei
conta. Muito mais sozinha do que tinha imaginado. E muito melhor também. Vou
guardar minha modéstia para outras coisas e me permitir o devido orgulho: Fui
foda. Fiz bonito, cresci, corri, conectei, me escutei, descobri, voltei atrás,
entreguei, me esforcei, escolhi – pela primeira vez de verdade, olhei meu
corpo, burlei o tempo, enfrentei o pior, saí de labirintos e, com sincera
labirintite, entrei em outros, amei muito, e por amor quebrei espelhos, ralei
joelhos, inventei novos limites, chorei – valendo. Lavei a alma. Sujei de novo.
E nessa loucura toda: Eu dei conta. “Sozinha”.
E aí, entram aspas. Eu não gosto muito de aspas. Do meio
que. Não é bem isso. Se não é pra dizer a que veio, duro e direto, nem derrama
pro papel. Mas enfim, as aspas. Porque se de um lado foi sim, muito sozinha, de
outro foi muito bem acompanhada. E esse é o ponto dois. Percebi, naquele mesmo
momento silencioso, que em mais uma ironia da vida, ou golpe de sorte, ou
evolução batalhada, justamente nesse ano uma rede de coisas incríveis se
formou ao alcance dos meus abraços. Por todos os lados. De todas as
partes. E eu me permiti começar de novo. Verbalizar a grandeza. Aceitar
as falhas, com amor. Agradecer, sempre que der.
Porque, no fim das contas, o fim é só apenas um recomeço.
Sobre a vida
a vida nem sempre vai te dar aquele abraço apertado de mãe, carinho nas costas, dormir no meio da tarde.
às vezes é punição, é calor de meio-dia nos dias mais quentes de São Paulo
ela nem sempre te sorri dizendo que vai ficar tudo bem e que é só um dia, um momento ou um período ruim.
às vezes te faz arder e sentir como se você nunca irá sair dessa.
você até vai sair dessa, mas a vida gosta de enganar um pouco as pessoas.
e quando você sentir um nó fechando sua garganta e lágrimas infinitas escorrendo pelos olhos,
ela não vai te pegar no colo ou te aninhar no peito.
ela vai ser meio cruel.
sem te dar garantia nenhuma de que nenhuma dor é infinita.
mas a gente aprende a tirar força de algum lugar dentro de si mesmo pra continuar seguindo por mais que os dias tenham gosto de remédio.
e sempre vai ter um detalhe - uma mensagem, uma aula que você gosta, um passeio no meio da tarde - que vai te lembrar que a vida pode ser um pouco leve mesmo em meio aos caos do cotiano, à correria das provas, ao desespero da ansiedade.
e quando os tempos melhores vierem, você vai saber que passou por tudo isso justamente porque precisava.
a dor te tornará uma pessoa mais madura.
e você vai perceber que ainda é capaz de vivenciar
e entender, na pele
o que a felicidade pode significar
sobre as milhões de versões de você sem nenhuma cor
a mesma foto no meu quarto
a mesma foto que tirei de você naquela viagem que fizemos.
você ainda diz as mesmas coisas para todas elas
o mesmo clichê de que elas são donas dos teus olhos, como dizia que eu era
o mesmo clichê de que encontrou a sua morada, como dizia que eu era.
você ainda vaga pelos mesmos lugares
pelos mesmos autores
pelos mesmos poemas
pelos mesmos artistas
e os eleva para tantos outros olhares que não o meu, como fazia comigo
não dá pra entender como alguém consegue viver uma farsa há tanto tempo
e mesmo assim todo mundo acreditar
eu tenho pena das pessoas que se relacionam com você
assim como eu tive raiva de mim por ter, um dia, te conhecido.
não quero desmerecer nenhum momento vivido com você
acredite, todos eles me fizeram algo bom e ruim ao mesmo tempo
e me transformaram na pessoa que sou hoje
não vou mentir que aprendi muito com você
aprendi a amar, a acreditar, a odiar e a desconfiar
e mesmo passando tanto tempo da minha vida presa às suas cicatrizes dentro do meu coração, tua partida me ensinou que eu poderia ser livre
não só para ser quem eu queria ser
mas para ser quem eu sempre fui
tendo a chance de chorar/sorrir/amar/odiar sem me desmerecer
me permitindo estar onde quero
como
e quando eu quiser.
enquanto você continua preso às suas amarras cotidianas
e a pessoa que nunca irá conseguir ser,
mas sempre será
tanto para você
como para as pessoas a quem se entregar
só mais uma pessoa passível de pena.
das coisas que valem a pena
naquela madrugada após o teu aniversário, a gente conversou por muito tempo sobre como a vida às vezes é difícil, mas como também é possível mudá-la. eu chorava, como se esses meses todos que segurei o choro, desabassem de uma só vez; o que fizeram outras pessoas se afastarem de mim não fez você parar de me abraçar e de sussurrar no meu ouvido coisas que não esperava ouvir: sobre o quão boa eu sou. desde que você chegou na minha vida, eu vivencio na prática a minha capacidade infinita de me reconstruir. eu, que já estava quase que meio-caminho-andando-na-aceitação-da-vida, pude entender que tem coisas que foram feitas para nós, outras não. que existem milhões de pessoas no mundo que você nem imagina que existem e que podem existir no seu dia, mas existem.
e você me mostra diariamente que mesmo quando dói muito e a gente pensa que nunca vai encontrar um sorriso tão bonito
ou alguém que se encaixe tão bem no nosso peito e que tenha tamanha capacidade de entender as nossas histórias sem nexo,
a gente sempre encontra.
e
as dores sempre passam.
claro que partidas são sempre árduas e chegam mesmo arrancando pedaços.
os primeiros dias depois do fim são complicados.
uma mistura de saudade, medo, solidão e desesperança,
parece que o mundo inteiro nunca mais vai ter a mesma graça sem aquele bom dia antes tão esperado
acho que você me entende porque também doeu em você.
você viu que dói, mas que quase sempre dá pra seguir, mesmo com dor e saudade.
que
as coisas passam. a gente muda. a cabeça amadurece.
e até a forma de encarar as perdas se transforma depois de alguns amores.
a gente passa a vê-las não como o fim do mundo,
mas como um estágio anterior à construção de um novo momento.
o mais importante, apesar das dores, são as marcas que deixamos um no outro – e é por isso que as relações ainda valem.
é por isso que vale a pena quebrar a cara e machucar a própria alma com a despedida. pelo que fica.
você, por exemplo, me ensinou o bom de ser amada e a gentileza
que o amor ainda pode fazer.
me fez sonhar acordada com as músicas mais bobas do mundo.
mais do que tudo, você me enxergou
de um jeito que eu mesma nunca tinha me enxergado
e me fez ver o quão importante eu sou e o quão feliz eu deveria ser apenas pelo fato de estar aqui, viva; (mesmo que às vezes eu não me sinta assim tão bem com o peso que carrego nas costas)
você me fez mais boba, sim.
mais romântica (ok, nem tanto) e mais otimista.
você me ensina diariamente que dá pra ir até o fim dos dias e voltar à vida.
que eu posso ser do jeito que eu sou
gostar do que eu gosto
até ter esse jeito nervoso e emburrado quando tá com sono ou fome
que eu ainda vou valer a pena.
você me mostrou que o amor ainda vale a pena.
naquela madrugada após o teu aniversário, a gente conversou por muito tempo sobre como a vida às vezes é difícil, mas como também é possível mudá-la. eu chorava, como se esses meses todos que segurei o choro, desabassem de uma só vez; o que fizeram outras pessoas se afastarem de mim não fez você parar de me abraçar e de sussurrar no meu ouvido coisas que não esperava ouvir: sobre o quão boa eu sou. desde que você chegou na minha vida, eu vivencio na prática a minha capacidade infinita de me reconstruir. eu, que já estava quase que meio-caminho-andando-na-aceitação-da-vida, pude entender que tem coisas que foram feitas para nós, outras não. que existem milhões de pessoas no mundo que você nem imagina que existem e que podem existir no seu dia, mas existem.
e você me mostra diariamente que mesmo quando dói muito e a gente pensa que nunca vai encontrar um sorriso tão bonito
ou alguém que se encaixe tão bem no nosso peito e que tenha tamanha capacidade de entender as nossas histórias sem nexo,
a gente sempre encontra.
e
as dores sempre passam.
claro que partidas são sempre árduas e chegam mesmo arrancando pedaços.
os primeiros dias depois do fim são complicados.
uma mistura de saudade, medo, solidão e desesperança,
parece que o mundo inteiro nunca mais vai ter a mesma graça sem aquele bom dia antes tão esperado
acho que você me entende porque também doeu em você.
você viu que dói, mas que quase sempre dá pra seguir, mesmo com dor e saudade.
que
as coisas passam. a gente muda. a cabeça amadurece.
e até a forma de encarar as perdas se transforma depois de alguns amores.
a gente passa a vê-las não como o fim do mundo,
mas como um estágio anterior à construção de um novo momento.
o mais importante, apesar das dores, são as marcas que deixamos um no outro – e é por isso que as relações ainda valem.
é por isso que vale a pena quebrar a cara e machucar a própria alma com a despedida. pelo que fica.
você, por exemplo, me ensinou o bom de ser amada e a gentileza
que o amor ainda pode fazer.
me fez sonhar acordada com as músicas mais bobas do mundo.
mais do que tudo, você me enxergou
de um jeito que eu mesma nunca tinha me enxergado
e me fez ver o quão importante eu sou e o quão feliz eu deveria ser apenas pelo fato de estar aqui, viva; (mesmo que às vezes eu não me sinta assim tão bem com o peso que carrego nas costas)
você me fez mais boba, sim.
mais romântica (ok, nem tanto) e mais otimista.
você me ensina diariamente que dá pra ir até o fim dos dias e voltar à vida.
que eu posso ser do jeito que eu sou
gostar do que eu gosto
até ter esse jeito nervoso e emburrado quando tá com sono ou fome
que eu ainda vou valer a pena.
você me mostrou que o amor ainda vale a pena.
sobre voltar à vida;
uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se continuasse com o meu jeito.
eu acreditei muito nisso. eu sempre levei muito a sério o que as pessoas diziam sobre e para mim. passei anos da minha vida me julgando, me menosprezando e me autossabotando, achando que eu realmente era alguém que não tinha nada de bom para oferecer. eu acreditei fielmente quando todos se voltaram contra mim por eu ser desse jeito. não sei exatamente qual jeito é esse, mas me culpava. era uma culpa amarga, que eu não sabia porque sentia, mas sentia. e talvez seja por essa mesma culpa que eu sempre aceitei tudo o que era me dado. aceitei ouvir os xingamentos de namorados, os socos no estômago, o olhar não correspondido, a traição a flor da pele, as gritarias constantes, "você precisa mudar", "você estraga tudo", "para de ser assim", os medos do fracasso, as imposições do corpo perfeito, aceitei tudo. baixei a cabeça pra todos, porque sempre me coloquei como a errada. a menina nervosa que estraga tudo. que não consegue manter um relacionamento. que não consegue ficar quieta quando algo lhe machuca. que não consegue ser feliz todos o dias. a menina que sempre chorava antes de dormir porque era o único lugar que se sentia ela. mas isso me afogava. eu me afogava todos os dias por não conseguir ser do jeito que queriam que eu fosse. me perguntava diariamente o que eu deveria fazer. como eu deveria ser. não é uma questão de ser aceita, mas uma questão de que era a única maneira que as pessoas me deixariam em paz. eu não consegui. eu não consegui mudar. não consegui gostar de coisas forçadas só porque todos gostavam. não consegui deixar de lado quem eu era para agradar a família dos outros.
uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se não fosse ficar com aquela pessoa em questão.
eu acreditei muito nisso. eu sempre levei muito a sério o que meu coração sentia e era como se eu fosse fiel a mim mesma. e fui. fiel a quem eu sou e a quem eu amei. e eu nunca consegui mudar esse jeito. nunca consegui disfarçar que eu não tava bem, que eu não gostava de piadas maldosas ou de comentários escrotos. nunca consegui. nunca. e eu perdi muito por ser assim. e aí continuei a me culpar. continuei tentando ser quem eu não era. tentei. tentei por dias ou meses, não me lembro. mas tentei. tentei ser uma ana clara que as pessoas não reclamassem. porque sempre teve uma reclamação. sempre. s-e-m-p-r-e. "nossa, essa menina vive de cara feia", "como você consegue estar com ela", "você precisa mudar", "você é muito estressada". eu já tinha me acostumado a isso. e eu parei de me importar aos poucos. ok, eu confesso que a terapia me ajudou muito em me conhecer. ficar sozinha durante um tempo me ajudou ainda mais.
uma vez me disseram que eu nunca iria conseguir ser feliz se eu fosse assim. mas o nunca é muito tempo e a vida é rápida. e eu aprendi a me aceitar, aprendi a me julgar menos (ainda cometo erros, é claro), aprendi a me respeitar. e aprendi que eu posso ser quem eu quero ser, que não é isso que faz de mim uma pessoa ruim ou não. tá no caráter, na essência. é uma coisa que ou você é ou você não é. ninguém consegue sustentar uma mentira por tanto tempo. ninguém. ninguém consegue fingir ser uma coisa por muito tempo. e eu sei disso porque vivi isso. eu vi isso. e eu vi que é possível perder tudo e ganhar de novo. porque o universo devolve aquilo que merecemos. quem diria que eu, depois de tantas idas e vindas, iria conseguir sorrir de novo? quem diria que eu iria conseguir fechar os olhos pra beijar alguém e sentir que o mundo inteiro parou de rodar naquele instante e que não existe passado, não existe nada, só existe o ali, aquele momento em questão. e você fez isso na minha vida. você surgiu desavisado, como quem não queria nada, mas quis, e me quis do jeito que eu sou, e nunca me julgou por isso, e isso me deixa bem, confortável. você entende, você suporta, você não me impõe limites. me incentiva. me dá bronca quando não digo que não estou bem mas que é uma bronca sincera de quem quer o meu melhor. me faz perder o medo. me faz perder a vergonha. me faz acreditar que eu posso, que se tem uma coisa que posso é poder. me faz sentir que a vida pode ser melhor. que ela é melhor. que dói, mas que dá. que se a gente vai junto, se apoiando, do nosso jeito, dá. me faz acreditar que nem tudo está perdido e que eu não sou um monstro como disseram. me faz acreditar que eu sou capaz. que dá. que dá sim pra viver e não apenas sobreviver. você me faz acreditar que o hoje é bom. que mesmo eu tendo problemas com ansiedade e tristezas eu não sou uma má pessoa. me faz acreditar que dá, que dá sim pra se apaixonar por alguém que você conheceu há quatro meses. que dá. que sempre dá pra ser. basta a gente querer. e fazer. você veio pra me mostrar que um relacionamento é muito mais do que uma troca de amor. é respeito. é carinho na mão enquanto o outro dorme. é silêncio quando precisa. é "cheguei" ou "vem logo". é buscar água pro outro. é dormir todo torto porque os dois não cabem na cama de solteiro. é abraçar durante a noite e se sentir a pessoa mais sortuda do mundo por ter aquele ser cuidando do seu sono. é fazer o bem ao outro sem querer nada em troca. é rir quando o teu cílios passa na bochecha. é você. e isso basta.
olha só, moreno
eu não queria chorar de novo e eu sinto muito por você ter que secar minhas lágrimas, assim, logo de cara, mas meu coração é sufocado pelo peso das minhas angústias e mágoas e medos que ainda percorrem involuntariamente cada uma das minhas veias. a culpa não é sua ou de alguém, nunca foi e nunca será. é algo que infelizmente não consigo ter controle total e eu estava tão angustiada, com tanta vontade de sair correndo pelas ruas e gritar o que tanto me aflige mesmo sem saber mensurar o tamanho dessa dor que invade cada um dos minutos do meu dia. eu não queria ter tido uma crise na sua frente e eu sinto muito por você ter que me segurar para não cair, assim, na frente daquele trem lotado, mas meus pensamentos são traiçoeiros e é como se um filme mudo passasse a cada segundo que seguro a respiração para não sofrer e para não chorar. a culpa não é sua ou de alguém, nunca foi e nunca será. insisto em dizer isso porque é algo que infelizmente ainda estou tentando curar e que aos poucos desaparece, mas que volta à tona quando o meu coração mais pede por proteção. e você me protege e eu acho lindo a forma como você segura meu pescoço nessa tua mão quentinha, e me cura de todos os meus pesadelos. quando você diz que não confio em você, me dói todo o meu corpo por você achar que eu não quero falar, que eu não quero entregar a minha vida em tuas mãos, mas a verdade é que é difícil, desculpa, mas ainda é difícil. mas não fala mais, por favor, porque desde o primeiro dia que vi você passando por aquelas catracas da consolação eu senti que todas as minhas más recordações seriam preenchidas com novas memórias preferidas. porque você é assim. nunca ninguém tinha se importado comigo indo chorar dormindo e você me colocou no teu peito e me permitiu chorar sem julgamentos. poxa vida, você tem noção do quanto o teu zelo mudou a minha vida? do quanto os meus problemas vão embora quando você diz "sabia que você é linda?". eu esqueço de tudo quando dá hora de te ver, e eu fico brava porque não está chegando e eu penso "puta merda porque tão longe" mas aí eu lembro que essa distância aumenta a minha saudade e quando eu finalmente te vejo meu coração acelera de uma maneira que eu não sei explicar, mas acelera, e parece que eu não vou respirar, mas eu respiro porque eu preciso estar viva para continuar te vendo. meu deus do céu, eu sou tão exagerada, como uma aquariana nata com a lua ou sei lá que em gêmeos, eu jamais deveria ser assim, mas sou, e eu não consigo sentir mais ou menos, ou gostar mais ou menos porque é você. você cheio de coisas nada a ver comigo, mas com outras tudo a ver, me fez acreditar que o amanhã existe, que dá pra continuar, que dá pra morrer e voltar à vida em uma só vida porque existe outra vida que está esperando pela minha. loucura? eu sei, estou em prantos porque eu queria que você soubesse que desde que você disse que um dia achava que a gente se casaria e eu pensei comigo "aff, deus me livre" mas mal sabia eu que você seria a pessoa que me traria forças para continuar e pra ser quem eu quero ser, porque com você eu sinto que posso e posso, assim como você deve ser/fazer quem quiser ser, porque é você e a gente vai levando assim, no nosso jeito, como você diz. eu não queria dizer tudo isso em texto, mas eu choraria e eu acho que você não pode e não deve me ver chorando mais, porque não quero te preocupar, não quero te sufocar e te trazer mais pensamentos nessa tua cabeçona, por isso eu disse tudo aqui nesse textão alá caio fernando abreu de facebook, ai meu deus, como eu sou brega, mas ok. você entende, porque você provavelmente vai estar rindo agora, ou eu vou te chamar pra contar alguma piada de pontinho ou te mandar a dori, mas enfim, só queria que você soubesse que a tua vida já mudou a minha. obrigada por aparecer e mudar toda a minha percepção do que é e do que a gente pode ser ainda na mesma vida.
bem-te-levarei
Eu me vi de novo naquele quarto abafado e apertado. e essa deve ser a parte mais difícil da existência:
ter que aguentar as lembranças.
mas a verdade é que tudo pode se transformar
e dar espaços para novas memórias
novas memórias preferidas
como aquela risada engasgada
ou aqueles cachos do cabelo perfumado
é, acho que isso é a parte boa de existir
ter a chance de viver essas coisas que trazem
arrepios frios
e eu não me importo
não me importo de que lado você está
de que forma você come
qual a sua cor favorita
teu santo, seu partido, seu gosto musical
não me importo
de qual cicatrizes ainda não fecharam
de quem você cuida nos pensamentos
qual é o teu cavaleiro do zodíaco preferido
qual é o teu swin
que perfume você usa
a cor dos teus olhos
qual dogma você segue
não me importa nada
nem de quantos amores você teve
ou quantos beijos dela você ainda sonha
ou em que filme,
música
ou cidade que você mora.
o que me importa é ter a chance de existir ao seu lado
aqui
e
agora.
Eu não sei quase nada sobre a vida,
suspeito que você também não
mas começo a entender que a nossa festa pode ir mudando
com passos cada vez mais próximos
então, para
desacelera o tempo
fica
e vem comigo no caminho
bem-te-leverei,
vem.
sobre o que eu espero disso tudo
Minha melhor amiga me perguntou se eu estava feliz. Um amigo
do trabalho perguntou o que eu espero de você. Parei para pensar nessas duas
perguntas e percebo que estou feliz e não espero nada. Calma, não é rispidez da
minha parte. É porque percebi que têm coisas que acontecem sem
precisar planejar, esperar, pedir ou ter, necessariamente, final. Inclusive
nós, querendo ou não, já acontecemos, independente do ser ou do estar. Entre
tantas definições que pensei em colocar aqui, penso que simplesmente:
acontecemos. O que vem depois, prefiro não rotular. Por isso, quando achar que eu estou sonhando demais, pode me
acordar pra realidade, mas me acorda com um beijo e me mostra que o presente é
um lugar mais bonito do que o futuro. Só quero de ti o hoje. Só quero ver você jogando seus jogos tranquilamente, só
pra poder ver você olhando para trás para constatar que eu estou te vendo. Só quero ouvir você me contar como foi o seu dia enquanto eu
fico acariciando o seu braço e te olhando com cara de dori. Só quero te
ajudar com os seus trabalhos quando você estiver doente ou sem tempo. Só
quero encostar minha mão gelada nas suas costas num dia frio até você me xingar
e eu pedir pra você me esquentar. Só quero acordar ao seu lado, antes de você, pra te observar dormir. Só quero aquela mensagem dizendo que o meu cheiro ainda está
na sua roupa. Só quero pegar a sua mão com força e beijá-la quando você
estiver aflito. Só quero deitar no seu peito quando eu estiver ansiosa com
a vida. Só quero que continue acontecendo. Só quero que a gente aproveite
dos pequenos momentos pra se fazer feliz, sem rótulos ou promessas. Do nosso
jeito.
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