Deixa ser

Cansa de tanto eu teimar comigo mesmo, dizendo "não espere mais do que possam te oferecer, ana". Mas na verdade, eu não consigo fazer jus as minhas próprias palavras. Não consigo entender o que eu falo. Seja clara, Ana Clara. Isso realmente não é pra mim. Eu volto pra casa, fazendo minhas dancinhas enquanto ouço uma música qualquer e esqueço de todo mundo que me reprime com o olhar. É essa questão, todo mundo me reprimir. Deixa eu fazer o que eu quero fazer, cantar, falar, chorar, ser a boba feliz de sempre, de achar graça em qualquer coisa, até mesmo em frutas na prateleira de um supermercado. Sinto falta dessa coisa. De detalhes, sabe? De ser puxada pela mão e andar por aí rindo de tudo, de não sentirem vergonha de duas ou três espinhas no meu rosto, de me deixar andar de cabelo preso, de não se importar por eu não usar brincos. Essas coisinhas miúdas. De não pensar na maldade de ninguém, de ouvir Los Hermanos e não ser criticada. De não pagar de cult, não saber nome de diretores de cinema nem albuns de bandas que ninguém gosta. De ser assim mesmo, com timidez alternativa: quieta, mas quando se solta, solta pra ser feliz. Pra fazer alguém feliz. Não são detalhes tão pequenos assim. Penso melhor, quero algo que nem eu sei o que é. De deitar no colo de alguém e ouvir as risadas baixinhas misturadas com "você não existe". De fazer cócegas só pra ver os dentes do outro. Preciso chorar por um motivo bobo e sentir um par de olhos a me olhar só pra dizer: eu estou aqui. De me deixar olhar sem parar, amar sem medir tamanho, de querer fazer bem a alguém. De ser alguém. Não preciso ser o amor de ninguém. Eu só preciso de alguém que me deixe ser eu. Que tire fotos mostrando a língua ou entortando o nariz. De não me condenar por uma palavra qualquer. Que me deixe. Que seja eu, junto comigo, me deixando ser junto com ele, sendo ele. De andar na ponta do pé na sarjeta. De me deixar sentar no chão. De me deixar sonhar. De tanta coisa. Eu quero tudo isso de volta. Não quero ser entendida, só quero uma companhia que não se importe de me deixar ser assim sempre. Assim, tão Ana Clara de ser.

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