it's all for you
Nem sempre o tempo vai botar as coisas no lugar
Querida Lu.
O tempo passou muito rápido, não é? Ainda ontem eu estava sentada na mesa embaixo da escada de sua casa desenhando pinheiros. Lembra? Acho que desde que não a vejo mais, um pedaço do meu coração ainda está em partes pequenas. Também acredito que muita gente ao meu redor não entende de fato o porquê sinto tanto a sua falta, mas eu sinto. Você tinha um jeito só teu, sabe? Aquele acolhedor e sempre tão sutil. Sempre sem esperar nada em troca. Queria ter aproveitado mais. Ter fugido para sua casa quando as coisas não iam bem. Tipo agora. Como eu queria pegar o ônibus e descer na sua porta, e você estaria me esperando, provavelmente com a Susi no colo. Com aquela torta de frango e coca cola de vidro. Ou então brigadeiro. Ou seria um arroz e feijão quentinho e fresquinho? Tem sido difícil a vida aqui deste lado. Um vazio que me consome dia após dia. A rotina que não alimenta o desejo de continuar vivendo. O coração cada vez mais machucado e relutando para encontrar um pouco de paz. O corpo que pede descanso e a mente que não me deixa descansar quando eu mais preciso. Não sei como tem sido para você, mas aqui a gente tem que provar todo dia algo para alguém. Todo dia uma nova ferida que nunca cicatriza. Uma parte nossa que se perde e ninguém consegue achar - ou ter tempo para te ajudar a encontrar. Desse lado aqui, a gente passa tempo demais tentado ser boa e autossuficiente para todo mundo. Como se para que as pessoas te aceitem, você tem que dar algo e ser merecedor. A gente sabe que na teoria não é assim, mas quando chega na prática, durante a vida, fica difícil cair na real e entender que temos que ser quem somos; fazer o que queremos; e estar com quem nos merece. A gente também sabe que um dia isso tudo vai ser passado, e que não irá haver mais futuro, mas mesmo assim continuamos a brigar por besteiras. A gente defende ideais construídos com base no pensamento de alguém, quando deveríamos seguir o nosso coração. A gente enfrenta as pessoas esquecendo que são elas que movem o mundo. A gente esquece tanta coisa, Lu. Na hora da ira, não vemos razão ou sensibilidade. Não temos a noção do nosso poder de machucar o outro. Vivemos cansados e baseados no princípio de que temos que trabalhar a vida inteira para ter o que merecemos. E o que merecemos afinal? Essa pergunta ronda minha cabeça na grande maioria dos dias. Das noites. E dos segundos de ansiedade. Fazemos tanto para não termos nada. Ficarmos sozinhos. Enfrentarmos os próprios demônios no silêncio do nosso eu. Vivemos com hora para acabar e mesmo assim não aproveitamos. Volto a dizer que o tempo está passando cada vez mais rápido. Ainda ontem eu estava esperando o 103 com você no Jaçanã. E agora já estou aqui, acumulando fracassos, decepções e um monte de conta pra pagar. Nessas horas eu só queria te ver e me deitar toda torta no seu sofá com aqueles braços de madeira. Nessas horas eu realmente só queria correr até você.
Meu amor de sempre (ou mais).
Entenda melhor
Como silenciar os demônios dos meus pensamentos quando as coisas dão errado? Parece uma avalanche de decepções, onde nem o motorista do ônibus colabora para eu chegar cedo em casa e me deixa com a mão acenando no ponto e passa direto por mim. Dessas coisas tão pequenas, por que a mente trabalha contra e me faz enxergar que tudo desmorona um pouquinho todos os dias? Onde está a linha que separa as pequenas derrotas diárias em águas passadas e apagadas? Por que dói tanto quando as coisas não saem como planejado? Eu sei, parece coisa de gente mimada, mas num coração ansioso, essas coisas fazem tanta falta. Desmarcar encontros parecem o fim de uma vida quando você mais precisa de um abraço apertado. Mensagens não respondidas doem mais do que grosserias. Eu não quero me sentir de novo como alguém que erra por gostar. Não quero me sentir idiota por me dedicar a alguém que planeja ir embora ao acordar. E o problema, por exemplo, nem é ir embora, mas me fazer acreditar que queria ficar. E são coisas como essa que desgraçam a minha cabeça e me fazem questionar a existência de pessoas boas e questionar as coisas boas que eu posso fazer por qualquer pessoa, afinal, não tem como não enlouquecer ao perceber que as coisas boas que fazemos podem assustar pessoas. Ou pior: não ser suficiente. E esse é meu receio com você. Obviamente prometer que não vai desgraçar a minha cabeça é algo que nem você nem ninguém pode fazer – nem eu mesmo com alguém -, mas eu falo assim para que lembre-se que eu não sou um brinquedo para se divertir e depois esquecer na prateleira. E tudo bem se você não souber lidar muito com esses alinhamentos sentimentais, você vai tentando porque o mais importante é tentar. O fundamental pra mim é você ter consciência do que é entrar na vida de uma pessoa; ter consciência do que é entrar na minha vida. Me conta qual é o seu momento na vida para eu saber como combinar com o meu.É que eu já levei tanta marretada no coração que hoje ele respira por aparelhos e tem sido devagar o processo de recuperação. Por isso meu receio com você. Por isso meu pedido para que prometa não desgraçar a minha cabeça e me fazer sentir pior que o lixo que eu descarto nas manhãs. Está tudo bem, mas vai ficar melhor se você me disser que entendeu o que eu quis dizer com tudo isso. É importante eu saber para que eu possa entender como gostar de você e continuar gostando de quem eu sou com você.
prometa saber o que quer
Você chegou tão suave. Foi devagar, sem que eu tivesse tempo de pensar ou fazer conjecturas malucas. Chegou sincero. E me deu a certeza de que quando alguém te quer faz de tudo pra te conquistar. Não sabia se aquilo tudo ia pra frente ou se era só mais uma curtição. Então, mais uma vez, percebi que eu estava na melhor época. E vi que não sentia falta de nada. Quando a gente se conheceu me deu um embrulho no estômago. Depois, fui me acalmando. Aos poucos, as coisas foram entrando nos eixos. Você segurou a minha mão, me beijou, te abracei, você beijou a minha testa. E ali selamos alguma coisa que eu não sabia o que era. Naquele momento, surgiu a cumplicidade. E uma vontade enorme de que o tempo parasse por alguns segundos. Minutos. Horas. Dias. Meses. Daquele dia em diante, nunca mais nos separamos. Daquele dia em diante, fomos nos conhecendo através de
mensagens longas que falavam do passado. Daquele dia em diante, várias conversas falavam do presente. E muitos beijos anunciavam um futuro que nos esperava de braços abertos.
Mas as coisas mudaram.
Você está sempre em busca de alguém que te ame verdadeiramente, já percebeu? E quando esse alguém finalmente chega, você faz merda atrás de merda. Um acúmulo de decepções para quem, de fato, ama você. Não são apenas mensagens ou brincadeiras, são sentimentos que você entrega a qualquer uma. E até quando você vai continuar a culpar os outros pelo que você não consegue
ter? É preciso ser verdadeiro aqui. Ser inteiro. E se ainda estás pela metade, aquieta seu coração e ajeita as coisas ao redor. Eu te amei desde o primeiro segundo que te vi e você não sabe o que fazer com isso. Mas parece que é só algo como ridicularizar o que sinto e quem sou. E até quando você falará dos outros que te machucaram sem perceber que você é uma máquina de machucar as pessoas?
Mas a verdade é que eu estou cansada.
Principalmente de continuar sempre aqui. De entender seus motivos. De esquecer teus erros. Mas até quando eu vou me permitir isso? Você faz eu me sentir culpada pelos meus choros e pelas crises de ansiedade, mas no fundo é você quem as causa. E eu to sempre errada. Não é me vitimizar ou minimizar as coisas boas que fez para mim. De fato, foram muitas. E ainda tem muita coisa boa. Pode ser que ainda tenha muita coisa boa pela frente. Mas porque você não pode ser apenas o cara de uma única pessoa? Por que não se decide? Ou, se não se decide, porque quer tanto que eu fique? Para eu continuar vendo tudo isso e passar por cima de cada pedaço do meu coração que você insiste em quebrar? Por que me deixar por perto se ainda tem tantas dúvidas?
Talvez seja porque você não sabe ficar só.
E tá tudo bem em não saber ficar sozinho. Tá tudo bem não saber o que quer. Mas, por favor, não me mantenha por perto se ainda não sabe.
mensagens longas que falavam do passado. Daquele dia em diante, várias conversas falavam do presente. E muitos beijos anunciavam um futuro que nos esperava de braços abertos.
Mas as coisas mudaram.
Você está sempre em busca de alguém que te ame verdadeiramente, já percebeu? E quando esse alguém finalmente chega, você faz merda atrás de merda. Um acúmulo de decepções para quem, de fato, ama você. Não são apenas mensagens ou brincadeiras, são sentimentos que você entrega a qualquer uma. E até quando você vai continuar a culpar os outros pelo que você não consegue
ter? É preciso ser verdadeiro aqui. Ser inteiro. E se ainda estás pela metade, aquieta seu coração e ajeita as coisas ao redor. Eu te amei desde o primeiro segundo que te vi e você não sabe o que fazer com isso. Mas parece que é só algo como ridicularizar o que sinto e quem sou. E até quando você falará dos outros que te machucaram sem perceber que você é uma máquina de machucar as pessoas?
Mas a verdade é que eu estou cansada.
Principalmente de continuar sempre aqui. De entender seus motivos. De esquecer teus erros. Mas até quando eu vou me permitir isso? Você faz eu me sentir culpada pelos meus choros e pelas crises de ansiedade, mas no fundo é você quem as causa. E eu to sempre errada. Não é me vitimizar ou minimizar as coisas boas que fez para mim. De fato, foram muitas. E ainda tem muita coisa boa. Pode ser que ainda tenha muita coisa boa pela frente. Mas porque você não pode ser apenas o cara de uma única pessoa? Por que não se decide? Ou, se não se decide, porque quer tanto que eu fique? Para eu continuar vendo tudo isso e passar por cima de cada pedaço do meu coração que você insiste em quebrar? Por que me deixar por perto se ainda tem tantas dúvidas?
Talvez seja porque você não sabe ficar só.
E tá tudo bem em não saber ficar sozinho. Tá tudo bem não saber o que quer. Mas, por favor, não me mantenha por perto se ainda não sabe.
daqueles momentos depois do encontro
Eu queria dizer coisas. Sorri um pouco pra mim? Me ajude a descobrir onde dói. Se ajoelhe na minha frente e deite no meu colo, vê se meu peito ainda bate, meça minha pressão, traga um balde pra eu vomitar, tem vick-vaporub? Eu juro, tentei mexer em alguma mecha dos seus cabelos bem cuidados. Não era possível mover o queixo e dizer seu nome seguido de promessas boas, mas estava pensando em você, em como não voltar a te fazer chorar pelos cantos. Eu tentava, no duro. Em algum nível, como você dizia, escolhi essa condição, embora sem saber como reprogramar meu cérebro.
Todos nós temos períodos trôpegos de dormência, de confusão, de enlouquecimento. E a gente costuma vangloriar, invejar os loucos, queremos refletir no espelho como tal, em busca de mera absolvição. Um louco é só um covarde que não suportou sentir a dor. Admito, talvez o processo de enlouquecer seja excitante, chacoalhando sua mente sonolenta com nervura, entorpecendo, fazendo notar ainda ser possível jogar-se com muito ímpeto ao pote. Mas, uma vez louco, sempre. E para o louco, toda loucura é normal.
E eu quero mais, quero me surpreender, surpreender você. Quero voltar pra casa e plantar algum jasmim com seu cheiro. Só existe amor onde tem perfume e movimento – e a cama que não tem tempo de se recompor, e os recados curtos em papel amarelo e autoadesivo.
É o seu cabelo, que de tão macio, faz meus dedos se perderem... E eu faria cafuné brega a noite toda em você, mesmo lá pelas 3 da manhã depois que o seu jogo terminasse e eu pudesse te sentir .
E por cima daqueles lençóis vagabundos, não éramos somente dois corpos sedentos um pelo outro. Estávamos também com nossos corações despidos. Vi o quanto preza pelas pessoas que ama e eu senti uma vontade enorme de fazer parte das coisas que você leva consigo.
-Vê se não faz igual a todos os outros e não se vá sem motivos ou respostas. Promete pelo menos conversar comigo e não me deixar cheio de pontos de interrogação? É que eu já sei como é se despedaçar e não quero passar por isso novamente.
-E o que você fez?
-Quando eu fiquei aos cacos? Eu tive que aprender a me virar. Tinha a sensação de que o mundo era enorme, cheio de coisas desconhecidas, e eu senti medo da solidão, de não ter quem abraçar.
-São tantos os tontos...
-Que sentem medo quando ficam despedaçados e sozinhos?
-Não. Que tem medo de se entregar. Eu não deixaria você cair no chão novamente, por nada nesse mundo.
Não usaram palavras como especial, diferente ou qualquer coisa do tipo, apesar de terem se reconhecido no instante em que se olharam. Era o primeiro encontro, e não que isso fizesse diferença ou fosse alguma barreira para dar nome às suas emoções, mas era cedo demais para tentar nomeá-las; precisavam mover-se até os ponteiros se acertarem.
Não queriam ser um clichê empilhado de promessas. Ao invés de discutirem fidelidade e ciúme -previsível demais- trataram de levantar logo da cama e foram comer lanche natural com suco de maracujá, de madrugada mesmo, durante uma mordida e outra, planejaram mais “sim” ao invés de “não”, mais sorrisos, mais nudez e mais aqui.
Porque você é tudo o que eu preciso nesse exato momento é dormir com a sua cabeça no meu peito, sentindo seu cheiro.
De todas as coisas que você me deu, a melhor delas certamente foi a chance de escolher, escolher você, escolher ficar contigo e atravessar com algum alívio os dias que eu quero simplesmente morrer pra não ser intimado a depor sobre o meu sumiço.
Sobre quem te vê sorrir mas que não sabe das suas lágrimas de ser quem você é
Este não é um texto de autoajuda. É quase um autofragelo por ser 15:26 da tarde e eu estar sonhado com as 18h48 e o fim do expediente.
Só mais quatro anos para chegar aos 30. Essa, em tese, contagem regressiva tem tirado meu sono no quesito o-que-fazer-da-vida. Também penso em como a internet hoje está lotada de poetas e autores desconhecidos e motivacionais que, de fato, dão um certo alívio no final da leitura, mas que depois a gente acaba ficando na mesma. Eu fico na mesma depois de desabafar sem parar no meu blog, esperando algo que não vai cair do céu, ou que algo mude sem que eu tenha que me mexer.
E é aí que eu me sufoco. Vivo angustiada olhando pro relógio do computador que parece cravar sempre os mesmos minutos. A rotina, então, nem se fala. Sabe quando você se dá conta de que faz a mesma coisa todos os dias? O mesmo caminho, a mesma playlist no spotify, as mesmas postagens nas redes sociais e os assuntos rotineiros que são sempre a mesma coisa.
Fico pensando na minha carta de motorista que não consegui tirar. Ou da minha mãe pagando aluguel há mais de 30 anos e não ter uma casa própria. Ou dos boletos e mais boletos que não dão em nada. Do videogame que não consigo ter tempo de jogar. Da máquina de costura récem adquirida que não tenho tempo para aprender a mexer.
Tá certo. Há quem diga que as vitórias têm a ver com passos diários e com lutas silenciosas dentro da gente. Que há começos que são fins e fins que são só o começo. Isso até faz sentido fora da prática. Na hora de bater o penalti, quando o goleiro fica dançando na sua frente e tentando ficar um pouco adiantado, é sua decisão que vai contar. E o lado que você escolher pode ser errado.
É difícil não se frustrar, não é? A gente tenta. A gente tenta não criar expectivas, mas não tem como. Quando a fundação do nosso coração sente-se instável ou quebrada, é difícil encontrar nosso balanço. Trabalho vira fardo, a saúde torna-se um desafio, a confiança vai por água abaixo e tomar decisões é mais difícil ainda.
Por outro lado, enquanto nós estamos lutando para encontrar nosso equilíbrio, também estamos de pé no precipício de possibilidades. E o que fazer enquanto a hora não passa? Tentar me acalmar e pensar que já passou quarenta e um minutos desde que comecei a escrever esse texto.
Talvez ajude.
Ou só piore minha ansiedade.
in the morning
No inicio dessa manhã eu acordei precisando de você, tateando tuas mãos no escuro, querendo que elas ainda trancassem meu peito como um cadeado que só você sabe abrir. Acordei meio que de sobressalto e, como esperado, você não estava aqui pra dizer que tive apenas mais um sonho ruim, que eu precisava mesmo de um alguns segundos de massagem no peito pra adormecer tranquila e sonhar com você, como sempre me pede a cada despedida. No fundo, só precisava mesmo desse seu carinho meio sonolento meio preguiçoso, despretensioso - embora sincero - e das pontas quentes dos teus dedos passeando pelo meu rosto, até calçar a nuca e ficar por ali. Coloquei meus pés no chão – literalmente – e percebi que o curto percurso até o trabalho seria completamente tedioso sem os teus passos copiando os meus escada abaixo e quarteirão acima.
Depois de levantar, vi que a bagunça de minha cama era, de certa forma, incompleta sem aquela metade do teu corpo me cumprimentando com gentileza por fora da minha manta de oncinha. Sim, porque contigo tudo fica em seu devido lugar, inclusive toda e qualquer desordem; porque contigo cada manhã de segunda começa como uma madrugada de sábado pra domingo, cheia de paz e preguiça pois, independente do compromisso marcado pras horas seguintes nosso romance-matinal-cotidiano sempre pode ser prorrogado por mais cinco minutos.
Função soneca mais perfeita do que essa nunca existiu e devo admitir que sinto falta de acordar quinze minutos mais cedo e perder alguns instantes de sono pra ficar abraçada. Contigo, ser irresponsável pra algumas coisas tem um gosto até bom.
Só queria que você soubesse que – mais uma vez – acordei querendo dormir ao seu lado; ou pelo menos, te vendo dormir aqui no meu canto da cama, roubando meu travesseiro, respirando em modo automático, sereno e numa meiguice de fazer inveja, com as mãos em concha embaixo do rosto. Ou acordado também, reclamando do quão quanto você odeia meu ventilador sempre ligado.
Que não se aconchegue demais e vá embora sem deixar rastros esse lance estranho que me invade ao olhar pra nossa cama vazia; tão estranho e cruel quanto os vários obstáculos quilométricos que vão se intercalando entre nossas expectativas-realidade ao longo dos meses sem nenhum tipo de cerimônia. Que não faça hora extra esse momento ‘sem-você-deitado-no-meu-ombro’ que insiste teimoso em várias madrugadas de insônia e sonhos irrequietos, soletrando cuidadosamente (num sorriso sacana que só você tem) que o sossego tarda e as vezes falha sim. Que esse infeliz acaso pare de me descobrir, me deixando ao relento da tua ausência. Que você entre por aquela porta vestido com a tua camiseta do homem aranha, repetindo docemente que nem nos seus melhores sonhos tu imaginava me encontrar, tão bem dito e bendito, me acordando de qualquer sonho bom ou ruim e trazendo boas doses de realidade, carinho e daquele café que mesmo você não sabendo fazer do jeito que eu gosto, é do jeito que é só teu.
depois do abandono
Comecei a te conhecer no dia em que te abandonei.
Foi a minha afirmação quando, dez anos depois, encontrei o que sobrou nas sacolas e malas espalhadas ao acaso no cantos da casa da minha mãe. Eu sorri e disse-me "o que eu fiz da minha vida?" mas os lábios só se morderam, me forçando a dizer "está tudo bem, isso também passa". Fiquei horas a pegar no sono, até que eu, nestas horas tão minhas, aprendi com toda a naturalidade do mundo que as coisas precisam terminar para a gente aprender o que de fato é nosso, seja por merecimento ou não. Mas antes de cair na real, precisei esbofetar a sua cara para depois te odiar lentamente e esquecer o que você significou todos esses anos no meu coração. De seguida, pensei em fugir de mim e depois voltar a minha sã consciência a tarde toda, e a noite toda daquela tormenta que custava a passar. Mas finalmente decidi não fazer mais nada e, lentamente, a esconder as minhas lágrimas e dores por dentro dos olhos. Abandonei-te da mesma maneira que você tinha me abandonado uma década antes. Não foi uma vingança nem sequer um castigo - como você costumava balbuciar. Apenas percebi que não precisava mais estar perdida dentro do que eu sentia e que tinha que ir pra longe de você, e dos teus braços e dos teus olhos sempre tão marejados e calejados de dor. Eu precisei ir pra longe de ti para entender que precisava ir pra dentro de mim. Pensei que provavelmente foi isso o que você fez naquele dia que me deixou, sozinha e esparramada de dor, no chão, para nunca mais voltar.
Comecei a te conhecer no dia em que te abandonei, justamente quando você resolveu voltar.
Foi a minha constatação, poucos minutos depois, quando você, teimoso, me seguiu pela cidade, até o fundo da rua, com teu jeito tão cheio de fardos do mundo a carregar. Estive frente a frente, tantas mentiras, pra ouvir você dizer que estava finalmente com quem sabia te amar. Pensei comigo, enfim, que "sorte a minha não ter mais nada com você", porque agora não há mais nenhum ruído meu que você poderá calar. Na verdade você não disse nada porque você decora poesias como quem decora o telefone de casa. Mas o que de fato, você me disse, é que eu era a dona dos teus olhos. Eu e a Joana. Eu e a Mariana. Eu e a Renata. Eu e a Maria. Eu e a ciclana. Eu e todas elas.
Terminei de te conhecer no dia em que me livrei.
Foi o que minha memória me lembrou, segundos depois, quando você, finalmente, se retirou das roupas, dos livros e das músicas da minha vida. Logo ali, naquelas escadas, toda gente percebeu que a única traição foi sentir teus abraços, por mais que tenha pedido tantos documentos que me comprovassem. De fato, nunca casamos. Soube, dias mais tarde, que todo o tempo você havia renegado. Sempre fugitivo. Ora dos meus olhos, ora da sua própria verdade. Fiquei presa durante dez anos. E havia fugido de mim. E tinha sido tempo demasiado.
Sim, eu quero.
Foram as minhas palavras quando, no registro civil das lembranças do coração, como tinha de ser, lhe respondi que eu queria apagar de vez tua imagem, sempre tão fraca e melodramática.
apesar de tudo
pelo visto, eu ainda sou a menina parada na porta da escola, indo até a sorveteria toda as terças e quintas-feiras atrás do sorvete de sensação com cobertura de morango. de fato, sempre quis o óbvio e, talvez, o mistério nunca tenha me atraído. sempre com vergonha de tudo, dos sentimentos aos gostos, através de uma reclusão particular da minha alma. mas também nunca gostei do que estava na minha cara, de fácil acesso. sempre me apaixonei pelo mais complicado, pelo mais difícil. foi pelo impossível que criei amores e descobri que poderia amar, porque meso assim eu botava fé em tudo o que eu gostava. em tudo o que eu achava que poderia dar certo. em linhas gerais, um pedaço de papel sempre me fez traduzir o que ninguém conseguiria entender com palavras. fazia mais do que falava sem a intenção de ter. diante das palavras eu me deitava num espaço confortável. eu esperava pela hora certa de escrever ainda não estava preparada para encarar um oceano de possibilidades de uma que me aguardava. eu queria que tudo fosse sincero, desejava numa entrega muda de palavras com o meu destino. escrevo por dias, pensando em um único dia. entrego, me entrego. “O amor não é melado, o amor é doce. Não é dependência e muito menos explicação. O amor nunca esteve pronto antes de ser o amor. Ele assim como eu gaguejou, derrubou coisas, foi desajeitado e engraçado, foi simples. Ele escreveu o que não sabia falar dentro de mim, mandou eu te dizer, mas eu me senti como ele, então também copiei dele e decidi escrever antes de tentar falar, pois você não merece qualquer coisa. Amor é construído, nunca chega pronto. Não se percebe quando chega, não se pode filmar ou guardar nas gavetas, pois amor é desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores ele ainda será um desconhecido, assim como eu aqui agora. Então não me faça falar, só me deixe ser, só me queira ser assim como eu sou. Só me queira num querer mudo, assim como sem palavras eu quero você”. morrer de amor é o único motivo de estar vivo. percebo que sempre busquei o amor e nunca me arrependi.
de tantas outras voltas
Não tem jeito: tem hora que meu coração parece, às vezes, querer sofrer tudo de novo. E a máxima de que a internet veio para diminuir a distância e a aumentar a comunicação é até válida, mas a verdade é que ela veio pra nos destruir um pouquinho todos os dias. Eu trabalho com ela. Eu estou o dia inteiro conectada, ala Black Mirror. Mas é pior do que isso: a internet me possibilita prolongar a dor. Vire e mexe eu vou atrás de alguma coisa. Tem dia que é o email marcado como favorito e como assunto "para nunca esquecer". Em outros, é indo atrás de algum resquício em uma rede social. Embora a memória seja colecionadora de momentos, cheiros, toques e tantas outras sensações, a internet é ainda o calabouço de todas as suas maiores curiosidades. Você quer saber como fulano está. Com quem ele está. Se ele continua mentindo. Se ele continua com as mesmas frases decoradas. Se ele ainda lembra de você. Não dói igual, mas é uma sensação estranha. E por que a nossa mente é treinada para fazer isso sempre quando estamos pra baixo? Também queria saber. Por que simplesmente não deixamos lá como estão? Talvez seja porque a gente precisa de uma lição de lucidez. Entender porque existe o fim. E porque existe passado. A verdade é que não adianta tentar escapar: um dia tudo volta à tona. E depois vai embora. E volta. E assim continuaremos.
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Grande mentirosa, mais besta que a besta e dona de um coração “viciado em amar errado”.
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