Só notava sua ausência quando chegava mais perto, e eu abaixava minha cabeça e via seus passos que corriam de um lado para o outro confirmando não estar em sintonia com o meu falar. Cada passar de sua caminhada, seus pés ficavam ainda mais pesados e apressados,
e mesmo assim tentava contar seu compasso: o que era impossível.
Continuava com a cabeça baixa e podia sentir sua mão levemente aquecida passando pela minha nuca, alertando ainda mais que eu estava a ponto de explodir por não conseguir conter a quebra de intimidade que já havia acontecido a tempos.
O dar de ombros era uma ofensa tão forte quanto a força de alguém para pedir perdão por algo que não fez.
Mais forte do que querer concertar um erro a errar.
E eu sempre lá, na minha contundencia, calando minha revolta ao tentar erguer os olhos para encontrar teu rosto e te fazer parar de deambular por ali e por aqui... mas você não tinha verbo, matéria-prima. Sempre lhe faltava sonho, incertezas.
Enquanto balançava sua perna, meus lábios ardiam em febre a espera de alguma ordem que me sustentasse ou simplesmente de um abraço que curasse minha sede por afetos.
Quando finalmente consegui levantar minha cabeça, você parou.
"Eu sei o que eu quero. Quero ficar aqui!"
"Acho comum. Acho válido. Acho porra nenhuma. Você fez tanto esforço para expor sua fragilidade que agora acaba em nada!"
Encontrei facilmente a delimitação de onde terminara minha resistência, quando meus olhos não encontraram os olhos teus, o distanciamento seria consumido ainda mais com o decorrer do tempo.
Sabe aquele faz de conta, aquele que a gente sempre usa "faz de conta que nunca aconteceu nada"? Eu acho muito triste viver disso. É, tudo tão esmagado. Pedacinho por pedacinho.
A gente tenta dar movimento sem consumir sentimento, e o que acontece ?
Acaba com a cabeça baixa, retida em solidão, desprovida de emoção.
Depois, o faz de conta de nada adianta.
Eu terminei como ele começou: andando de um lado pro outro, mas agora, sem ninguém com os olhos no chão a desviar do meu falar.

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