Só era preciso ouvidos

André tomava seu banho, como era de costume, nas tardes de céu limpo (se não estava, só se banhava na madrugada).
Laura ficava olhando sua silhueta, como também era de costume, naquela pequena janela de vidro retorcido.A janela do banheiro dele ficava de frente para a porta de entrada dela.
Tempos atrás , quando Laura não pensava no tempo, ela sentava na escada e ouvia André tocar teclado, violão, banjo, sax, flauta e tudo quanto era instrumento. Via ele subir em sua moto com o violão nas costas e escutava ele dizer: "-Mãe, estou indo para o programa do Jô!"
Sempre tentava vê-lo no programa, mas o sono era maior e dormia antes mesmo de ele se apresentar. Nunca se falaram. Laura só sabia que ele era irmão da tia de sua prima, nada mais. E ah, sabia seu nome por conta da sua prima fofoqueira que também havia dito o seu para ele.
Naquela tarde de novembro, foi diferente.
Laura sentou nas escadas, soluçando. Via nos degraus a cena do adeus do amor de sua vida e lembrava dele dizendo: "- O tempo vai te trazer de volta pra mim, eu tenho certeza. Pode demorar quanto for, você vai voltar a ser feliz do meu lado!". Não se conformava. Não queria ele de volta. Só queria amar de novo. Se indignava: quando realmente começou a sentir que amar não mede esforços, veio o tempo e destruiu com teus sonhos.
Coçava sua nuca, mania de quando estava nervosa, e percebeu um par de olhos pretos a te olhar e o barulho da caixa d'água enchendo conforme o chuveiro ia liberando água. Parou.
Pela primeira vez na vida, ela viu os olhos de André.
Pela primeira vez na vida, ele viu os olhos de Laura.
Ela olhava seus cabelos molhados. Ele tinha o sorriso mais singelo que havia visto. André sussurrou e Laura entendeu com a leitura labial que aprendera a fazer quando suas amigas queriam lhe contar algum caso extraordinário sem que fones de ouvidos as escutassem.
Ele murmurou: "Não soluces, laurinha, ainda és muito nova para chorar pelo tempo!"
Ela desatou a falar: "Mas que porra de tempo é esse? Cansei, chega. Não me iludirei com as coisas pela metade que venho vivendo. Uma paixão daqui, um caminho que não se encontra dali. Pára, o tempo está passando muito rápido e eu ainda estou aqui, caindo dessas escadas e chorando as horas que vivo sozinha!"
André desligou o chuveiro. Secou seus cabelos.
Laura se debruçou na mureta para ver o corredor de sua casa, ele estava lá. Trouxe um violão. Fez uma canção sobre o tempo. Disse invejar a música que diz "o tempo engatinhar", pois não ficara tão perfeita como esta, mas trazia alguns versos que ouvira Laura dizer. "o tempo é piada, quando cai em contradição/em contradição ele cai por fazer piada de mim!".
Laura sorriu, tinha ficado bonitinho. Secara suas lágrimas e pegou sua escaleta para rimar com as cordas de André. Fizeram uma música. Ficou péssima e André disse: "-Querida, essa música eu não tocarei no Jô, mas tenha certeza que mudou o meu dia. A partir de hoje fiques feliz. O tempo me trouxe até aqui para falarmos do tempo. A sua idade é pequena diante da minha, mas tens razão quando diz que o tempo é piada. Não chores por ele, ele não te merecia. Aliás, ele não merecia teu tempo. Mas você ainda o tem. E me desculpe, mas o tempo não foge de ti. É você mesmo que está fugindo dele."
Laura ficou chocada, mas era verdade.
Se despediu. Com uma lagrima de berada de olho, sentiu-se aliviada.
Entrou e foi buscar um papel. Quando voltou, André não estava mais lá. Mas não era necessário.
Ela jogou o pedaço de papel em seu varal, que ficou preso em uma peça de roupa.
E o que estava escrito ?
"-Obrigada por ter me dado tempo de falar sobre o tempo que não estava sendo agradável comigo."

(O tempo ainda existe e tem tempo pra me esperar)
concluiu *

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