você mereceria um outdoor na cidade
the same old fears
Eu deveria me acostumar e entender que a vida passa. E que as coisas também passam.
Essa é a verdade que eu gostaria de contar quando a noite cai e eu fico sozinha comigo mesma. Só que eu não consigo. Em luta, meu ser ainda se divide em dois, uma metade que aceita e a outra metade que diz: não, eu não vou me acostumar com o que dói. Não é possível que alguém em sã consciência consiga viver tranquilamente sem pensar no que não foi. Ou no que foi e não deu certo. Ou o que deu certo, mas se foi.
“the same old fears” nunca me fez tão sentido como agora. Tanta coisa vem e volta o tempo inteiro na minha mente. Como vou passar os próximos anos com essa angústia que ninguém tira do peito? Como aceitar que as pessoas vão embora e não se despedem? Como entender o amor e o quanto ele pode mudar a vida de alguém? Eu não sei.
Esses últimos dias eu tenho tido um medo absurdo de morrer e não dar tempo. Não dar tempo de dizer tudo o que eu tinha pra falar e não tive coragem. Não dar tempo de refazer as pazes comigo mesma e aceitar que eu não tive culpa. Não dar tempo de falar coisas que sempre aparecem na minha cabeça, como o quanto eu queria estar com aquela pessoa em específico mas não disse porque eu pensei demais e achei melhor deixar pra lá. Puta merda. Eu sempre deixo as coisas pra lá e esse “pra lá” pode nunca saber o que de fato eu senti.
Vocês não tem medo?
Medo de acabar e você não ter feito nada? Ou medo de não começar um novo amor? Medo de deixar as coisas como estão por medo de falar o que sente? De mudar? De pegar o ônibus errado, mas acabar chegando ao destino final? Eu não sei dizer o que mais me dói nessa história toda.
Eu tenho medo e, as vezes, ele me paralisa.
Não sei direito o que eu deveria fazer. Ou o que é certo. Mas em nenhuma biografia romântica sobre a vida é possível premeditar acertos ou equívocos, não existem registros ou algo para comparar na mesma existência. A gente faz e vê depois. Não existe pessoa certa ou vida errada. Simplesmente nos impulsionamos em direção ao primeiro sinal de troca, alguma fagulha ou sensação que utopicamente nos distancie da morte, rejuvenesça, preste algum significado ao ato natural de trocar o ar dos pulmões.
Eu vou, simplesmente, em frente.
E quando isso passar, espero ter conseguido — um dia — dizer tudo o que queria dizer; fazer tudo o que precisava ter feito e não tive forças. Talvez, eu espero, que essa mania de ter medo por coisas que queria fazer e falar, e tentar e errar, finalmente tenha cessado.
boa viagem
Fazia meses que eu entrava no seu perfil, mas não tinha coragem de te chamar pra conversar. Você apareceu para mim num dia que eu chorava mais do que o normal. A dor ainda era latente. E você surgiu como recomendação. Pensando bem aqui, eu nunca entendi porque você me foi sugerido, mas eu fiquei com aquilo na cabeça. Na verdade, eu fiquei com uma foto específica na cabeça: uma que você está sorrindo sem olhar pra câmera. Quando me dei por mim, a vergonha tinha passado, eu tava de férias e no tempo ocioso fiz promessas para mim mesma: não esconder vontades. Foi assim que decidi ir atrás de você. Você puxou assunto e três dias depois eu te encontrei. Você me fez rir das coisas que eu já gostava e eu descobri que você também gostava. Era engraçado te ouvir falar em outra língua. Você não entendia, mas eu achava engraçado. Porque você é assim, de arrancar o riso. Percebi isso nas três vezes que te encontrei. Na forma que você se encaixou em mim quando eu disse que não dormia de conchinha. No jeito que você continuou a segurar a minha mão enquanto dormia. Era lindo ouvir tua respiração no meu ouvido e imaginar um monte de coisa fora do seu quarto. Eu ficava acordada e era tão bom sentir o mundo mudando debaixo dos pés, que até me dava vontade de sair da cama e passear por aí apostando todas as minhas fichas em você. A mesma ficha que caiu ontem. Eu sei, a vida passa e a gente passa de fase. Quando se ver não é mais uma necessidade, mas apenas uma iminência, e as coisas terminam. Minto, as coisas nunca terminam, simplesmente se abandonam. Eu tomo mais um café. Eu parei de chorar em janeiro. Mas voltei hoje. Peguei aqueles meus CDs velhos de músicas melosas. Eu parei de ouvir Radiohead no ano passado. “Fake Plastic Trees” me faz chorar com uma menininha que perdeu seu urso de pelúcia. Mas voltei hoje. Até meus vícios que me deixam tristes ou drogada voltaram, e nada do teu rosto. Eu não quis te dizer muitas coisas porque me conheço. Sei que vai doer, como na música. Não-deixe-ninguém-machucar-teu-coração. Essa foi a única coisa que eu te disse, porque é verdade. Ninguém-deveria-te-machucar porque você é dessas pessoas raras no mundo. Com o intuito de ter uma visão doce sobre as coisas, mesmo as pessoas não sendo com você. Tem esse dom de fazer as pessoas se sentirem confortáveis ao assistir um vídeo clássico dos anos 2000 ou de comer burritos às duas da manhã na sua cama. Você tem disso, essa coisa de ser a pessoa certa no momento certo, mas não era uma hora tão certa assim. Sempre andei me escondendo das coisas. Tentando me livrar da dor da vida e das coisas que não deram certo para mim. Até que você, dormindo, me pediu um beijo e disse aquelas duas palavras que todo ser humano na terra quer ouvir. Estremeceu cada pedacinho do meu corpo, como se te conhecesse há anos e nenhum passado por trás existisse. Eu sei que você tava dormindo, e sei que você não disse de verdade, mas aquilo me fez ter uma outra visão das coisas e de como as coisas deveriam ser a partir dali. Sempre andei me escondendo de tudo, mas naquela noite eu decidi que não deveria mais deixar pra lá o que eu sinto ou o que deve ser deixado para lá. Eu te chamei esses dias pra te contar isso, mas a verdade é que mesmo decidindo não deixar as coisas para lá, eu resolvi deixar. Porque eu sei que daqui há quatro dias você vai pegar a estrada e talvez eu nunca mais te veja de novo. Tu precisa pegar esse caminho e conhecer a vida que te aguarda. Espero que um dia tu saiba que teu jeito, leve e engraçado, me acompanhou nessas noites de insônia e me fez sorrir. E dormir bem outra vez.
Você me fez sorrir.
Você me fez sorrir.
Amo, logo, resisto: a ideia dos recomeços e da vida após a perda
Quando a gente perde o primeiro grande amor de uma vida, nós achamos que nunca iremos superar. E de fato é difícil. Não é tão simples como contam em histórias do cinema, em livros de autoajuda ou em frases motivacionais no Instagram. Na pele, no dia a dia, na cabeça e no coração, suportar a perda chega a ser imensurável de tão dolorido que é.
Acontece que o tempo, mesmo que devagar em algumas ocasiões, passa. Clichê demais dizer que a dor passa com o tempo, mas a verdade é uma só: ela, de fato, não passa. Ela se aquieta. Aparece sorrateiramente para lembrar que você é, sim, de carne e osso. Retorna para te fazer entender que você passou por aquilo porque era para ser assim.
Depois de um tempo, todas as esperanças que você tinha perdido no amor, parecem ressurgir. A gente tromba o amor por acaso na rua. Ou no metrô. Ou na casa dos seus amigos. No aplicativo de paquera. Na festa de casamento do seu melhor amigo.
E, foi assim, que depois da perda, ele apareceu para mim. Tímido, mas falante. Com a risada engasgada e com as piadas mais idiotas do mundo. Contudo, as coisas não são perfeitas. Ele surgiu na minha pior fase. Daquelas que você não quer sair da cama por nada. E eu também surgi nas suas piores fases.
Porém, o amor, como bem sabemos, tem olhos que vasculham nossa alma, que veem os pontos mais internos e profundos, que ignoram aquilo que não vale a pena e supervalorizam as nossas melhores nuances, fotografando-nos apenas sob nossos melhores ângulos.
Ele não se assusta porque o outro não tem trabalho e nem dinheiro. Ele não se intimida porque o outro não tem casa. Ele ignora que o outro já entrou e saiu de um monte de relações. O amor é condescendente e topa ir almoçar com você no dia seguinte, mesmo quando você faz o convite a uma da manhã, depois de ter dito que iria precisar sumir por uma semana. Porque o amor não pede explicações, ele já é em si a justificativa perfeita para qualquer mudança de planos.
Na minha pele, o amor chegou numa noite sufocante de frio. Eu topei com ele e falei das músicas bregas do Youtube. Eu o levei para tomar uma na esquina da augusta e, ali, para fugir do zunzunzum dos bares, convidei-o para conhecer o mundo e torná-lo mais habitável, pelo menos naquelas horas, por aquela noite e, quem sabe, pelos próximos dias.
Eu não queria me envolver. Eu não queria ser a morada de ninguém. Eu não queria deixar ninguém se aproximar de mim. E, de fato, não deveria. Mas ele, ser ardiloso e insistente, me fez bater no peito de que ele era diferente. Meu deus, como eu acreditei que ele era diferente.
Ele se disfarçou de affair primeiro, deixando-me a vontade para fazer, dizer, titubear. Para poder dançar ao ritmo dialético e frenético do desejo e da hesitação. O amor simplificou as coisas para mim e quando eu lhe disse que "não estava disponível para nada", ele disse que também não estava, mas me convidou para assistir a uma banda chata na sua cidade.
E lá estava eu tentando quebrar todas as barreiras que eu criei no meu coração. Ele pegou nas minhas mãos e disse que tinha medo de eu ir embora, mas que seu maior medo era me deixar. Eu disse para o amor que também temia e que achava que não conseguiria sofrer tudo de novo, mas que não iria morrer se ele fosse embora.
Aliás, eu enfatizei que nosso tempo era o agora e que tudo que era bom merecia ser vivido até a última gota. Só que ninguém ensina o coração a ser diferente. A gente vai agindo por impulso, como se não pensasse muito bem o que estava fazendo.
Em outra noite fria, ele se fez morada. E eu topei o seu pedido besta, comendo frango e tomando coca cola gelada, de tentar ser alguma coisa. E eu tentei. Como eu tentei ser morada dos seus olhos.
Mas o que ninguém conta sobre os amores que aparecem assim, numa noite fria, é que talvez a gente esteja servindo apenas para tapar buracos. Curar a dor antiga que não cicatrizou e que insiste em voltar a doer.
Eu não percebia, mas eu deixei. Eu era muito diferente. Com um amor quieto, comedido em suas palavras, crítico que só ele, pessimista até, eu diria, zen-budista, praticando a não ação. Ele, centro do universo, sempre no palco da vida, eufórico, falador, gargalhando do que quer que seja.
O amor se instalou definitivo e imperceptível. Diferentemente das outras vezes, em que apenas percebi seu vulto, o amor - nesta ocasião - veio a passos lentos e bem premeditados. Não fez muitos convites, mas acolheu os meus. Não assinou contratos, porém foi doce e verdadeiro em cada linha. O amor se abriu para mim, como o Canal da Mancha faz aos seus intrépidos nadadores. Respondeu às minhas perguntas, mesmo quando eu não gostaria de ouvir às respostas e, pela primeira vez, não foi meu algoz, mas foi meu juiz. O amor não me aprisionou, não comeu meu nome, mas tirou a minha identidade.
Mas, no meio de desencontros com a vida, o amor mudou. O que era para ser a troca do que eu oferecia, se tornou uma ferida. Enquanto eu o fortalecia, cuidava da casa e do coração, e não deixava nenhum carinho faltar, ele estava se instaurando em outras noites frias por aí.
Ao invés de rir das minhas brincadeiras, das palavras que eu inventava e das dancinhas em frente ao espelho do guarda roupa, ele me fazia chorar mais do que deveria. Doía tanto que eu já não me reconhecia.
Enquanto eu falava de dor, ele falava de amor com outras pessoas. E não era sobre mim. Era sobre a sua necessidade de ser morada em tantas pessoas ao mesmo tempo.
Acredite: o amor não é para ser assim. Amor bom não dói e não machuca e não dá risada da sua cara. Não te sufoca com um travesseiro para você parar de chorar. O amor é grato. É único. É passível de erros, mas não de falta de caráter.
Ao olhar distante, percebo que talvez o amor seja isso: se entregar pura e verdadeiramente para alguém que não sabe o que fazer com isso. E é isso o que não nos ensinam sobre ele: a aceitar a perda e recomeçar.
Hoje eu entendo que, quando o amor deseja ir embora, eu não posso carregar essa culpa. Não posso me culpar por inconstâncias, por falta de respeito e por traições. Pra ele, eu fiz o que pude. Fui além da minha bolha, fui além de qualquer coisa que me prendia. Fui além da minha dor e de toda a minha história que perdi ao longo do tempo. Fiz além do que deveria.
Para eu, por hora, faço o que preciso: recomeçar mais uma vez.
coming around again
“I know nothing stays the same…” começa a falar a música que toca no meu fone de ouvido há alguns dias. As coisas começaram a andar no meio fio da calçada, igual quando a gente é criança e tenta se equilibrar naquele pequeno fim da calçada que chega na rua. Há quem se entrega pura e verdadeiramente para não perder o equilíbrio de vez. Há quem apenas finge se divertir com essa brincadeira boba e cheia de ressignificados.
Gosto de pensar que em algum lugar do mundo tem alguém profundamente acordado esperando por esse momento de encontrar o próximo meio fio. Há, também, quem está tentando superar a queda - provavelmente em algum lugar bem longe de mim - assim como eu. Talvez eu tenha sido a pessoa que sempre andou no meio fio ao longo da vida, sempre com tanta força e sutileza ao meio tempo, esquecendo que teria quem pudesse me derrubar.
Andar no meio fio é como o amor.
Esse amor que a gente se equilibra em corda fina e bamba. Gosto de pensar que tem gente que ainda entenda que o amor possui opostos bem confusos, entre a força e sutileza, que quando caímos, ainda há aquela coisa que fica. Ninguém nesse mundo consegue me dizer se é uma coisa boa ou ruim, mas é sempre alguma coisa que fica: algo entalado, engasgado, ou nem entalado ou nem engasgado, mas é uma presença estranha dentro do peito - e da cabeça.
Você que está lendo e tentando descobrir que música eu escuto, é uma versão do Copeland de coming around again, porque tudo isso já me aconteceu outra vez: andar no meio fio e cair ao ser derrubada. A gente vai inventando desculpas pro que não temos controle: Ah, ele é confuso. Ah, ele está tenso. Ah, ele tem medo. Ah, ele é maluco. Ah, ele isso. Ah, ele aquilo. Ah, ele não teve amor. A gente vai inventando mentiras sinceras igual Cazuza porque a gente aprendeu que amor às vezes dói e às vezes tudo suporta.
É poeta demais errar e sofrer por alguém que a gente amou por anos. A dor não é bonita e a perda, muitas vezes, é tragédia. Porque a gente sabe que encontros são raros no mundo e, muitas vezes curtos. A gente sabe que o desencontro é sempre eterno e arrastado… e dói.
As mentiras que contamos a nos mesmos quando estamos vivendo na corda fina e bamba são transparentes demais e, mesmo assim, continuamos - não por empatia nem por porra nenhuma - é que a gente acha que é bonito demais se imaginar por aí sendo tudo o que uma pessoa mais precisa ou, simplesmente, fazendo sentido para a vida de alguém.
O que a gente aprende só depois da queda é que talvez a gente faça sentido para alguém. Talvez em outro garoto. Talvez em outro planeta. Talvez em outra estrela perdida no céu. Talvez.
Talvez só pra te dizer que ainda podem haver encontros no fim.
A falta é irresponsável
Sobre o que ninguém te conta sobre a saudade
Têm sido dias doloridos. Eu não sei em qual momento da vida ou por qual razão dos cósmicos eu tenha me tornado uma pessoa profundamente nostálgica. É o stress do dia a dia? A ansiedade hóspede de todas as horas? O mês propício as minhas mais dolorosas e boas lembranças? Eu não sei muito bem.
Escolher alguns caminhos ao longo da vida é difícil. Ter que ver as coisas mudarem e se adaptarem ao novo é como ter um amigo de longa data, que vem, te abraça e fica por alguns dias. Que vai embora, mas que promete que volta daqui um mês ou daqui duas horas.
E ele sempre volta. E isso é a saudade.
Olho para trás e vejo muita coisa ficando, olho para frente e sei que tem muita coisa pra vir. É aquele ponto que é longe demais para voltar atrás e incerto demais para continuar sem medo. A saudade faz isso com a gente.
Recordar é um vício. Lembrar com detalhes de rostos, de conversas, de momentos é um dependência, uma espécie de compulsão adquirida de mentes acostumadas com uma vida guiada pela intensidade.
Já reparou que quando a gente é criança, nós não mensuramos o quão grande é sentir saudade de algo, de uma época, ou de alguém? Eu lembro que saudade era aquela vontade de ir até a casa da minha vó Lucinda, que morava há poucos minutos da minha casa, e eu podia ir lá a hora que eu bem entendesse. Era poder chegar lá com saudade da sua torta de frango e ela ter feito para eu comer.
A gente achava que saudade era estar de férias da escola há tanto tempo e voltar no mês seguinte com tanta coisa pra fofocar com os colegas. Saudade, na infância, era conseguir um real e ir comprar um monte de dadinho na doceria. Era andar de bicicleta com seus primos na viela do lado de casa. Era seus amigos indo na sua festa de aniversário pra comer bolo de chocolate e brigadeiro.
Mas a gente cresce e percebe que a saudade é muito mais dura. É algo que ninguém nunca vai conseguir mensurar. Passam-se anos, mas ela continua ali, embora às vezes escondida ou adormecida. Ela sempre volta, como o amigo acima mencionado.
E são saudades diferentes. Minha vó partiu quando eu tinha 12 anos. Hoje, com quase 27, ainda passo pelas ruas próximas a casa dela e tenho a sensação de que ela ainda estará lá. É um misto de angústia e dor, mas eu aceito. Quando lembro da infância e lembro dela, desenhando pinheiros comigo na mesa da sala, ainda engasga a garganta, mas eu entendo.
A vida é esse eterno sentir saudade de quem foi embora. Ou de quem a gente foi. Do que tínhamos e era tão bom. Saudade do que foi e do que poderia ter continuado a ser. E isso não é ser preso ao passado, longe disso: é apenas não passar pelo processo de Clementine em Eternal Sunshine of the Spotless Mind e esquecer.
Demorei anos pra aceitar que eu era um ser alimentado pela saudade, embora que não a saudade dolorosa. Mas aí está algo que ninguém nos conta sobre a vida: é impossível se desprender da saudade porque é impossível apagar o que passou.
Não dá pra esquecer a forma como nosso coração acelerava quando a pessoa que você mais amou na vida estava prestes a chegar. Não dá pra esquecer daquele abraço gostoso que nos protegia de tudo lá fora e que nunca mais vamos receber. Não dá pra esquecer das palavras de conforto, de atenção, de broncas e de zelo que a gente ouvia, porque a gente sabe que nunca mais irá ouvir. Não dá pra esquecer aquele cheirinho de café passado que só a minha vó sabia fazer. Não dá pra esquecer as noites de natal com a minha família inteira reunida sem nenhuma briga, apenas brincando com as crianças e sobre o que poderiam ser os presentes em volta da árvore. Não dá pra esquecer meu avô emocionado com o dvd que minha tia fez com as fotos antigas da família. Não dá pra esquecer os olhos que me esperavam no ponto de ônibus todas as noites porque era perigoso eu descer sozinha a rua.
Não dá pra esquecer, mas a gente aprende a conviver.
Vai ver a vida é isso mesmo: essa eterna saudade de coisas que a gente nunca vai ter novo, mas a certeza de que teremos sempre o amanhã pra continuar aqui e fazer novas lembranças favoritas.
Sobre quando amar é ser vulnerável
Sabe esses dias que você olha para trás tentando procurar algo que explique os motivos das suas próprias mudanças? Acho que é este é um momento que chega para todos, independente da idade, do número de erros, das chances que a vida deu ou, até mesmo, das coisas que passaram.
Quando eu paro nestes instantes para olhar para trás, mesmo sabendo que este não é o meu caminho a seguir, eu vejo uma menina que acreditava tanto nas pessoas. Que achava que o amor era capaz de mudar o mundo. Eu acreditava que era impossível perder quem se ama, porque o amor era a chave para todas as respostas. Conto da Carochinha? Talvez. Mas, com o tempo, a gente começa a se sufocar pelo que poderia ter sido. O antes. Mau indício de que os próximos dias irão te matar um pouquinho por vez.
Hoje, eu até acredito que o amor possa realmente ser resposta para as coisas, mas já não o vejo como capaz de mudar o mundo. C. S Lews escreveu, uma vez, que "o simples fato de se amar é uma vulnerabilidade". E não é verdade? Cada vez que a gente ama algo ou alguém, a gente está vulnerável à dor, à culpa, às incertezas e também aos acertos. Não vou ser pessimista o bastante pra dizer que o amor são só adjetivos ruins pelo simples fato das minhas experiência do passado terem sido tão dolorosas.
E, realmente, amar é ser vulnerável.
Porque amar é dar para alguém a paz que o mundo inteiro te tira. Mas, ao mesmo tempo, é sofrer pelo que poderia ser. Pelas coisas que poderiam dar certo, e não dão. E aí entra um fato que ninguém conta sobre o amor: a gente não consegue evitar a perda simplesmente porque queremos evitar.
Há quem diga que as vitórias têm a ver com passos diários e com lutas silenciosas dentro da gente. Que há começos que são fins e fins que são só o começo. Isso até faz sentido fora da prática. Mas na rotina, no dia que as cobranças começam a acumular, a única coisa a se fazer é se manter em pé, sem olhar para trás.
i should be the one behind the wheel
Essa noite sonhei que haviam achado seu carro na garagem de um parente do meu tio. Era como se eu tivesse sentindo tudo o que já passamos dentro dele. As milhares de músicas que cantávamos a todo o vapor. E até àquelas chatas, que você cismava em colocar pra tocar só pra me irritar. Das inúmeras gargalhadas de doer a barriga, porque no fundo, o que era engraçada mesmo era a sua risada toda torta e desajeitada, mas que era só sua. Das rotas erradas que eu fazia você pegar e culpava minha burrice de não saber ler o GPS, e você ficava puto da vida porque sempre tinha que pegar um retorno enorme até voltar de novo pro mesmo ponto que eu errei. Das conversas diárias que tínhamos quando voltávamos inconformados da casa de alguém, e muitas vezes a gente ficava puto ao mesmo tempo com as coisas que essas pessoas faziam, e a gente discutia pra ver se era realmente digno de ficar puto por uma coisa dessas. Das idas até os shows das nossas bandas favoritas, onde no caminho a gente já fazia planos sobre o que iriamos comer quando chegasse no lugar ou qual lugar iriamos depois para nossas gordices. Das inúmeras e incontáveis vezes que pegamos a vinte e três de maio pra ir correndo socorrer meu pai ou visitá-lo, e ver ele sorrindo quando você chegava, e eu voltava chorando toda vez porque era foda mesmo com todos os pesares e os "porquês" dele estar ali, era foda e você sabia que era foda pra mim, e talvez por isso ficava ainda do meu lado naquele lugar frio e solitário. Dos silêncios pela manhã que você não gostava de falar, tão pouco eu, mas que eu tentava fazer você falar qualquer coisa - você não entendia, mas eu só queria ouvir sua voz amanhecida e toda arranhada antes de você ir trabalhar ou me deixar no ponto de ônibus. É engraçado como um veículo, tão insignificante pra uns, possa ser espaço pra tanta memória. Lembro de como eu guardava as coisas, todas muqueadas no console ou das suas blusas jogadas no banco de trás. Você era uma espécie de caos e mostrava isso no seu carro. E é engraçado como as coisas são, como o tempo muda, como o ódio vai diminuindo e a saudade não existe mais, mas ainda existe essa coisa de sonhar e lembrar. Não é uma lembrança que me faz te querer de volta, até porque nenhum ser em sã consciência queria um embuste como você de volta, mas são essas lembranças que fazem a gente cair na real e lembrar de que eu não estava errada. Eu não posso me permitir me culpar depois de tanto tempo. Eu não tenho saudade de nada disso, te juro, mas eu lembro. As lembranças fazem parte da vida, mesmo eu querendo ser a Clementine e apagar de vez tudo isso da minha mente. Também não digo que fico remoendo e lembrando de você a cada instante, porque estaria mentindo. Eu não lembro de você porque você me fez mal. Você me machucou de uma maneira insondável, que talvez isso nunca se cure, ou se cure e eu ainda continue tendo essa sensação de que você é um puta dum merda, que desperdiçou a sua vida em segundos. Mas, eu sigo aqui, às vezes com ódio dos sonhos, às vezes com ódio de mim mesma por ter que ver essa memória, mas a verdade é que infelizmente ainda não pude dar um tiro na minha mente e apagar de vez toda essa merda que tu fez na minha vida.
Sobre ninguém sair ileso de ninguém
Eu sempre tive uma visão cética sobre as relações sociais: a gente pode, sim, esquecer uma pessoa; seja ela que nos magoou, quem a gente mais amou ou até quem odiamos. Acreditei fielmente nisto, principalmente de pessoas que me fizeram mal.
Mas eu não imaginava que grandes amores são quase impossíveis de se esquecer. A gente não vai esquecer o cara que nos entregamos pura e verdadeiramente ao longo de uma década, por exemplo. Não dá pra esquecer a mulher com quem passamos 40 anos de casado. Também não dá pra acordar e esquecer aquela paixonite de alguns dias, mas que durou o tempo certo no seu coração. É sério, simplesmente não dá.
Não é uma coisa nostálgica, sabe? É uma coisa estranha: você está ouvindo uma música no aleatório do Spotify e do nada aparece aquela banda que ele te apresentou e você odiava. Mas você lembrou que foi ele que te apresentou. Lembrou que ficou duas horas em pé assistindo o show dessa banda que você detestava. Lembrou que ficou puta da vida porque não aguentava mais ouvir essa música no carro enquanto iam pro cinema, pro almoço na casa dos seus pais ou pra algum evento chato que você fazia questão de não querer ir.
Você lembra do seu amor que você deixou pra trás quando o novo funcionário da empresa usa o mesmo perfume dele. Você até tenta não inalar esse cheiro, mas é igual. É o mesmo. A aparência física é completamente errada e não lembra em nada, mas ele usa o mesmo estilo de camisa xadrez toda amassada.
E aí eu te pergunto: como não lembrar?
Não é uma saudade. Nem uma tristeza. É só uma lembrança da pessoa que conviveu anos com você e que simplesmente você tenta diariamente apagar da mente. É uma luta constante, sabe? Funciona nos primeiros dias, nos primeiros meses e no primeiro ano. A imagem do rosto vai se apagando. Você não lembra mais de como era o toque e o tom da voz. Você se quer lembra do que era dito. Essas coisas vão se esvaecendo com o passar do tempo. Juro, isso passa. Assim como tudo na vida. Mas você vai se lembrar de que essa pessoa existiu na tua rotina. Talvez a raiva do início até cesse e a tempestade que era o seu coração começa a se tornar em um sábado de sol.
As coisas vão se acalmando. O que era dor deixou uma ferida que cicatriza. O que era mágoa se dissipa e se transforma em motivação para fazer diferente, pra encontrar o novo, pra novas chances e novos recomeços. A gente para pra pensar e percebe que está onde deveria estar. A gente começa a perceber que dá pra continuar cada vez mais. Que há motivos pra isso.
É claro que nem sempre o tempo vai ser bom e colocará as coisas no lugar na hora que quisermos. Mas ele coloca. A gente consegue superar, mesmo com essas pequenas lembranças no cotidiano.
Porque a vida é isso: cair, levantar e continuar, sabendo que "ninguém sai ileso de ninguém".
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