antes que eu me esqueça;


​Foi difícil aceitar que você me doía, ainda mais sabendo que eu nunca fui boa em aceitar as coisas. Nem sempre aceitar é difícil, como não é fácil quiçá rápido. Foi difícil acreditar e compreender que você me doía. "Como uma pessoa pode doer tanto assim", pensava comigo. E falando em pensar, eu perdi as contas de quantas noites eu deitava a cabeça ao seu lado no travesseiro, e te olhava dormir, tentando repassar mentalmente tudo o que vivemos nos últimos dez anos. Sempre me questionei: "onde foi que eu errei?", "o que eu poderia ter feito de diferente?", "quem eu deveria ser para te agradar?"

Não era para ter doído tanto. Me apeguei, por instinto, a culpa que nunca foi minha. Por carência, me apeguei a pequenos detalhes, fagulhas e faíscas que jamais existiram. Se existiram, foram pequenas demais. Eu me apegava ao que os outros diziam "não existe homem melhor que ele". Mas você não era bom. Voltando a repassar mentalmente tudo o que podíamos ter sido, eu lembro que você realmente não era bom em nada. Do que adiantava todos os seus poemas, as suas músicas e suas falas se você não conseguia ser assim por dentro?

Não era para você me doer tanto. O que você poderia ter feito para me livrar dos meus medos noturnos? Eu esperava o seu sorriso com as bochechas vermelhas, aquele seu olhar perdido e uma frase de que "eu te entendo". Mas você não entendia. Você não ficava. E eu também não conseguia me despedir. Queria você de noite. Durante a semana. O mês. O ano. "Fica comigo esta vida".

Mas essa vida nunca foi nossa. Eu tentei voltar no que ficou para trás, naquela história de adolescente, no frio na espinha. Mas não consegui. O passado andava rápido demais. E eu tentava desesperadamente reviver a vida com você. Eu tentei correr atrás do que restou dentro de mim da primeira vez que foi embora. Mas tudo foi em vão.

A esperança que eu sempre tive em você começou a perder o brilho quando te vi deitado naquela cama. Essa esperança que eu tinha quando te olhava parou de nascer em mim. Esperança de que você se arrependesse e me pedisse com a voz trêmula e os olhos úmidos: fica. Fica até a gente se perder um no outro. Fica para sempre, ainda que a gente não saiba se ele existe realmente. Fica até depois que tudo terminar.

Então eu tentei tirar tudo da cabeça em um happy hour com amigos, um novo corte de cabelo, um filme novo no cinema, um novo papel de parede, aquela viagem tão sonhada. Por breves momentos até consegui, mas depois me dei conta que o novo nem sempre apaga o velho. E que não adianta tentar pisar em cima de todos aqueles castelos de areia, tem que deixar a onda chegar e levar.

Quis voltar para onde tudo parou e tentar fazer de lá um novo começo. Um recomeço qualquer, mais bonito, diferente, sem os erros do passado. Mas percebi que inevitavelmente o tempo passa e as pessoas mudam e as lágrimas secam e você começa a se reerguer devagar.

Então, sem tentar fazer força, ​eu ​olhei o que restou dos castelos que a onda levou. E perceb​i​ que está na hora de mudar de praia, de areia, de estrutura de castelo. E começar uma nova história. Do zero.

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