... das lágrimas


É difícil continuar todos os dias sem chorar. É como fazer aniversário: como pode ser algo feliz se é a certeza de que o tempo está passando e nos levando com ele? A gente ganha tanto e sempre temos a sensação de que perdemos tanto (ou mais) também.

A vida continua, o corpo continua e alma continua. Continua para chegar ao fim.

É difícil viver todos os dias. A rotina aperta, o caos comprime. Quanto mais estamos chegando ao que queremos, mais temos a chance de cair. Temos uma margem para a queda, mas nunca nos preparamos antes para sobrevoar o próprio abismo. A gente tem tanto excesso de responsabilidade, de obrigatoriedade e mesmo assim desperdiçamos.

A vida é feita para cair. A gente cai e mesmo assim tem a obrigação de levantar.

​É difícil se levantar todos os dias. A gente perde um amor de uma vida e precisa se levantar. Perde-se um emprego e precisa se levantar. Perde-se as esperanças, o caminho e a oportunidade, mas tem que se levantar. Perdemos tudo e mesmo assim temos que levantar.

A vida é feita para levantar e continuar.

É difícil não viver estrangulada pelo que não consegui ser. Eu me privo. Eu me questiono. Eu me prendo em um dia cinzento, numa malha absurda de mais-ou-menos, uma teia irrespirável de meia-felicidade-meia-infelicidade.

A vida é feita de rotina. A gente precisa continuar, mesmo que a rotina nos engula.

É difícil não se emocionar todos os dias. Procurar por coisas que não doam, por coisas que nos faça sair do lugar ou por coisas que não abalem nossas estruturas.

A vida corrói, mas não ter por quem viver todos os dias mata.

É difícil pensar que eu tinha todos os sonhos do mundo. Hoje, depois de duas décadas e meia, tudo o que eu consegui foram quase-sonhos. Será que eu fui feliz? Claro que já fui feliz. Mas por quanto tempo?

Eu fui feliz quando conseguia abraçar, beijar e amar como se não houvesse o amanhã. Mas há. E esse amanhã me dói. Viver esperando o dia que serei feliz de novo machuca. E há dias que viver me pesa tanto. Dias que é urgente a minha vontade de deixar de viver.

A vida é difícil pra caralho.

É difícil ficar aqui, tentar entender o que eu fui, o que poderia ter sido, o que eu quis, o que eu tentei tanto. Eu quis tanto ser a paz de alguém, mas quem me garante que eu não estava servindo apenas para tampar buracos de existência?

Tudo continua na mesma e nada mais ficará como antes.

Eu não sei quem sou: eis a única verdade da minha vida.
Eu queria ser a criatura que mais tem vontade de viver. Queria ser a pessoa que luta, que vai até o fim dos dias por um amor, que vai até o fim das úlceras pelo que acredita lhe fazer feliz.

Mas eu não sou assim. E talvez isso me impede de ser feliz. Talvez eu queria demais ser feliz sabendo que eu nunca vou conseguir. Talvez eu não seja uma pessoa que mereça a felicidade. Felicidade exige demais, o amor exige mais ainda.

Pensar na vida me destrói por dentro.
Eu já não me suporto mais. Eu não consigo viver os dias.
Falta-me coragem.
Falta-me vontade.

Falta-me forças para entender que ainda dá tempo de voar.

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